(Des)Rotulada

Ela perdeu todos os prazos
Chorou, lamentou
Se perdeu…

Não acordava mais na hora
Não tinha mais alegria
Não respeitava a gramática
Não respeitava mais a rima
Nem sua afasia
A única hora do dia
Que conseguia
Para ela
Era o fim de tarde
Na janela…

E uma das mãos o café
Na outra seu cigarro de palha
para esquecer o tabaco,
O buraco,
O insensato,
O ingrato,
O acetato,
A asma que insistia
no dependente vício.

Ali ela acordava e coloria a paisagem.
Com cores existentes
Cores criadas
Cores daltonizadas

As palavras ameaçavam Baixar,
dançando em roda
Girando
Pulando
Gritando
Mas aquelas tardes eram
Das artes visuais..
Ela focava em mudar foco
A cada dia…

Assim o quadrado de espera
Perdia sua identidade…
Seu rótulo
Seu estigma
Sua função

Ali ela era livre
Para olhar.

Um dia acordou triste, triste
De não ter jeito.
Foi a padaria comprou um sonho
Mas não pode ligar para Marcelo (Nessa hora, tristeza profunda)

Esse dia ela trocou o cigarro pelo sonho
Com o café

E a paisagem ficou sem cor
Por repetidos 33 fins de tarde.

Aos poucos ela foi…
Voltando…
Aos poucos ela (re)lembrava sua paleta preferida
Aos poucos o ar irrigava
os pulmões ressecados
de afeto
Na ansiosa depressão.
Aos poucos ela conseguiu
Dizer NÃO.

E como um baixar de santo,
Sangue pulsando alto,
Olhou o céu.
Não era verde, como a cor rotulada naquele sentimento.
Era um azul indescritível
Que foi pintando toda a paisagem
E (des)enquadrando o rótulo da sua esperança…
Em movimento cíclico
Como pincel de aquarela,
Roubou o início para (des)rotular
o fim.

Rodada 104

Fotografia: Ana Pose
Poema: Bia Bertino

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