Novamente havia luz, cores e leveza no ar.
A manhã avançava e, aos poucos, as ruas iam sendo tomadas por aromas de dias melhores. Tevês e rádios anunciavam o fracasso da truculência. Algoritmos estropiados que haviam gerado aqueles dias torpes estavam, enfim, sob controle. Árvores sorriam, aliviadas.
Nos morros, janelas abertas deixavam entrar o sol. Sem medo do silenciamento, crianças brincavam impunes. Nos becos, músicas voltavam a ecoar. Livros, embaralhados e livres, ocupavam as prateleiras, ao alcance das mãos. Professoras empunhavam saberes e, sob aplausos, desfilavam na avenida central.
A alegria se restabelecia nos corações e mentes. Exilados anunciavam seu retorno, enquanto artistas saídos de seus refúgios retomavam picadeiros e palcos. A brutalidade havia sido aposentada. Flores de todas as cores e gêneros passeavam de mãos dadas.
Dali em diante, é claro, não era possível assegurar que a vida se reorganizaria rapidamente, e que os destroços seriam todos recolocados de pé. Não havia também a garantia de que todos partilhariam das mesmas sensações. Ainda assim, o coro dos descontentes poderia se manifestar, sem medo.
Os dias irrespiráveis estavam cancelados.
Rodada 104
Fotografia: Anita Handfas
Crônica: Robson Aguiar