Antes que fique escuro

– Vamos rezar para dar tudo certo. – a voz do médico expressava uma falsa solidariedade.

Olhei para o rosto de minha mãe, vendo seu canto de boca em esgar ateu. Há dias eu tentava conter minhas lágrimas. A todo instante, me lembrava do que ela havia me pedido.

– Já estou rezando, Doutor. Pra Santa Rosa…

– Ah… não conheço.

– Imaginei. – ela disse e fechou os olhos. O médico saiu, dizendo “até amanhã”.

A cirurgia em seus olhos seria no dia seguinte, no entanto seu rosto não expressava nervosismo, ansiedade, medo. Não expressava nada. Aproveitei que seus olhos estavam fechados para deixar que os meus escorressem todo o pavor que eu sentia. Na verdade, toda a pena. Toda comiseração que minha mãe não queria que eu sentisse por ela. Só uma coisa, ela havia me pedido. E eu não podia negar. “Vou olhar, gravar aquela lindeza nas minhas retinas podres e me acostumar que eu talvez possa nunca mais enxergar nada…” – tinha falado a frase de uma vez, como se cuspisse, no dia em que recebera o diagnóstico.

– Falou alguma coisa, mãe? – ela me tirava dos devaneios uma vez mais.

– Santa Rosa Luxemburgo, seu médico burguês filho da puta!

Ri. Rimos juntas a nossa gargalhada.

– Já arrumou tudo, filha?

– Já. Tudo certo

Ela abriu os olhos. Estávamos prontas para o seu “último desejo”. Peguei a chave do carro e fomos ver o que, talvez, fosse o seu último pôr do sol…

Rodada 104

Fotografia: Magali Maciel Rios
Conto: Eliane França

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