Um conto de Natal

Não conheci meu irmão mais velho. Viveu alguns dias, está enterrado no mesmo jazigo onde, anos depois, meus pais foram se juntar a ele; o jazigo que me aguarda. Uma destas noites sonhei com ele, uma criança triste que conversa comigo como conversaria um irmão mais velho, que me pergunta como está o mundo que ele nem bem conheceu. Falei sobre a canseira que é viver em um tempo no qual as esperanças têm sempre as asas cortadas e ele ficou ainda mais triste e me mandou que eu fosse a uma igreja acender uma vela ou mais, quantas eu puder.

Luz, eles precisam.

Acordei cansado, a cama encharcada de suor. As igrejas estão fechadas, risco de contaminação. Eu devia ter aproveitado e perguntado a ele, ao meu irmão, se já era o Apocalipse, mas nem pensei nisso. Paramentado com máscaras, luvas, álcool gel, coragem, compro uma caixa de velas e fósforos. A igreja está fechada, mas no muro ainda há um presépio que deve ter ficado do último Natal de antes da peste, nem sei há quanto tempo. Em nome do meu irmão e de tantos mortos que carrego e que me visitam nas noites quentes quando acordo suado, acendo as velas, uma a uma, fico olhando de longe até que as pequenas chamas se extinguem, uma a uma.

Acho que ouço um “muito obrigado” com a débil voz de uma criança que não conheci, meu possível aliado na luta para manter vivas as esperanças, para protegê-las de terem as asas cortadas. Sem ele do meu lado, a luta me cansou, melhor ir para casa e desinfetar roupa, mãos, pés, trancar portas e janelas, desligar o telefone e torcer para que tudo acabe bem.


Rodada 104

Fotografia: Graça Souza
Conto: Jozias Benedicto

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