A vida renasce inesperada

Dias e mais dias e continuava a chover enquanto o sol esquentava a terra e o calor fazia com que os dias se sucedessem sem nenhuma mudança significativa. Ficava incompreensível porque uma sucessão de calor e chuva se repetia sem solução de continuidade. Apenas se aproximava o verão e a medida que o calor avançava o clima tornava-se insuportável, o verão avançava e parecia que não haveria uma maneira de se refugiar do calor.

Tanto calor deixava a Mila sem vontade de fazer as mil e uma pequenas compras que a levariam a se arrastar no asfalto quente aguardando que alguma sombra lhe desse respiro. Para resolver as coisas necessárias precisava sair na rua, mas não conseguia nem sequer pegar seu menino e o levar na escola, quanto menos uma vez que o deixasse lá, sair novamente na rua e fazer as compras dos alimentos que já estavam faltando em casa.

Pegou seu filho, o vestiu com a roupa mais fresca que achou no armário: um short de uma fazenda fina e uma camiseta da cor do uniforme. Colocou nela um vestido amplo e decotado e uma sandália bem aberta e saiu para a escola enquanto ia pensando o que ela faria após deixar o menino na aula.

– Não posso pensar em voltar para casa e trabalhar neste calor. Ainda que ligue o ar, se deixar a janela fechada não vou conseguir me concentrar e escrever uma letra, nem ler, nem tentar ver um filme. Qualquer coisa que pretenda fazer não vai dar certo e depois às seis da tarde terei que voltar a escola e trazer André para casa.

Ficou com o menino pensando e se arrastando na calçada quente quando viu o que sempre estava ali na Praça Buenos Aires. Sem pensar duas vezes, disse para seu filho:

– O que você acha de não ir à escola para ficarmos brincando no parque?

– Acho muito melhor. Compra para mim um sorvete?

– Compro, sim, e para mim também. E pensou: – Hoje não vai ter nem escola, nem compras. Vamos ficar aqui mesmo.

Sentaram num banco do parque com o sorvete enquanto olhavam a quantidade enorme de folhas secas caídas do lado do banco e sob os pés deles iam ficando como as folhas quando morrem e caem das árvores. Uma vez caídas no chão, tinham cores diversas e intensas. Parecia que um pintor ali surgira com uma paleta de cores e um pincel para iniciar uma sessão de lindas pinturas, deixando aquelas folhas na cor vermelho intenso, amarelo suave, marrom, ocre, verde musgo. Era um festival de cores esparramados no chão.

De repente André viu uma folha grande vermelha, azul, e ocre com um broto verde, bem verde, saindo da nervura da própria folha. Levantou-a do chão e ficaram fascinados, ambos, mãe e filho, observando como de uma folha morta brotava a vida. Que espetáculo tão esperançado! O broto tinha aquela cor verde brilhante de toda a natureza que se reproduz, composta ainda de duas folhinhas pequenas e de uma flor em gestação, e pareciam sorrir como só a vida sabe-o fazer.

Rodada 104

Fotografia: Lúcia Dias
Conto: Silvia Gerschman

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