Venha cá, morena bonita
Negra da terra tropical
Chama o chefe da aldeia
Diz que quero conversar
Ô moço estranho,
Mal chegou e já dita regras
Primeiro fale-me teu nome
E qual é a tua terra
Prazer, João Ribeiro
Vindo do reino de Portugal
Tenho grandes planos na cabeça
Importados de minha terra natal
Portugal eu desconheço
Jamais ouvi falar
Melhor tomar a caravela de volta
Que não temos nada a acordar
Fique calma, minha querida
Não estou aqui para guerrear
Procuro apenas ouro e prata
Para rico poder ficar
Ouro e prata, o que é isso?
Creio que perdido está
Desconhecemos relíquias deste tipo
Aqui não temos nada disso
Cigana, não brinque comigo
Melhor ficar longe do perigo
Dê-me logo o que te peço
Senão terei que te matar!
Mas senhor, eu já te disse
É você quem está perdido
Tua embarcação aportou no sítio errado
Se acha que aqui será próspero
Está bem equivocado
Eu sei que mente, eu desconfio
Engana-me gratuitamente, sem qualquer motivo
E sequer somos inimigos! – acabamos de travar contato
Este é apenas o princípio
Meu amado viajante
Verifique no seu mapa
Se é este mesmo o teu destino…
Ora, mas que besteira
Interrogar-me de tal maneira
Que absurdo, que insulto
Cogitar que não segui bem as coordenadas
Aqui, olhe este desenho
Ele me trouxe direto a Pasárgada
Quero fincar nela minha bandeira
E fazer dela a minha pátria!
Oh, estava certo o tempo todo!
Seja muito bem-vindo, seu Ribeiro
Sem delongas nem mais rodeios
Venha explorar este vazio inteiro!
Vazio, sua louca?
Pasárgada é o paraíso
Terei as mulheres de que preciso
E do Rei, serei o favorito
Não é possível… a notícia a ti não chegou?
A Pasárgada dourada não mais existe
Foi destruída pelo último tirano que aqui governou
Deixando o antigo reino em total crise!
Aqui os sonhos não mais se fazem
Todos são fragmentados
Reduzidos a pó e migalhas
No lixo são jogados sem a menor piedade
Oh, morena! Quantas milhas viajei
Para ouvir uma coisa dessas
Quantos mares naveguei
Para pisar em uma lenda
Que pesar, que tristeza!
Que ilusão, que angústia!
Vou-me embora de Pasárgada
Antes tivesse tomado o caminho errado
Rodada 103
Fotografia: Lúcia Dias
Poema: Amanda Santos