Dona Rita

Fazia vários dias que a temperatura estava fora do normal.

Tínhamos chegado a 15 graus centígrados e parecia que ainda continuaria a diminuir mais do que os limites atuais. Um país tropical que finalizando outubro mostrava-se bastante mais frio do que costumava nessa época do ano.

– Imagina… – Ia se lamentando Dona Rita com os muitos anos que carregava no seu corpo. Esse era um dia em que sua filha não podia levá-la para fazer sua consulta médica.

– Pois não! – Pegou sua bengala, a roupa mais quente que tinha, os sapatos para atravessar os trilhos do trem, que percorria a cidade e o chapeuzinho para lhe proteger a cabeça.

Lá estava Dona Rita com seu maior otimismo.

Chegou ao médico após uma hora de caminhada e trem, mas com uma vontade férrea de chegar. Quando entrou na sala de estar, agradeceu no pensamento por se sentir tranquila e descansada, apesar do longo caminho percorrido. No consultório, teve que aguardar praticamente nada: o doutor estava nessa hora desocupado e a fez entrar logo.

Solicitou-lhe tirar a roupa do peito, as costas e a auscultou detidamente. A seguir, observou o ventre e as pernas. A ajudou-a a se levantar e lhe disse:

– Estou emocionado. Você é a paciente que mais admiro. Está perfeita. Não pensei que a encontraria com essa saúde espetacular. Você é a paciente capaz de me comover e agradecer a alegria por vê-la. Mas não se incomode, vou fazer os exames de práxis para controle. De aqui a três anos não vai precisar de outra consulta.

Rodada 103

Fotografia: Magali Maciel Rios
Conto: Silvia Gerschman

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