Aquela sensação estranha

Rosângela acordou estranha aquele dia. Estava quieta, concordando com tudo. Não perguntou pra onde Adalberto iria àquela hora, nem com quem. Preparou o café da manhã e sentou para comer com a marido como não fazia há tempos. Adalberto achou esquisito, mas não comentou nada. Um dia de paz, finalmente, depois de meses de brigas.

– Preciso de dinheiro pras compras, Adalberto. Você pode deixar alguma coisa antes de sair?

– Cento e cinquenta dá?

– Acho que sim, qualquer coisa peço algum emprestado para a Das Dores e pago quando sair seu salário.

Adalberto ficou um pouco incomodado com a resposta tão mansa, sem alfinetadas ou reclamações. Deixou o dinheiro e saiu, sem dizer para onde estava indo.

– Então tá, tô indo.

– Vai com Deus.

Vigiou pela janela o marido atravessar a rua, até sumir de vista. Terminou de arrumar a cozinha, ligou para Maria das Dores e perguntou se ela tinha como emprestar 150 reais.

– Adalberto te paga assim que sair o salário, semana que vem.

– Tudo bem, Rô. Só não tenho como sair de casa agora para deixar o dinheiro aí. Você passa aqui? Passo um café pra gente.

– Vou daqui a pouco, das Dores. Só preciso terminar de limpar a casa. Obrigada, viu.

Terminou de arrumar a casa, pegou o dinheiro que Adalberto deixou na mesa da cozinha e saiu, só com a bolsa de mão. Das Dores também achou que a amiga estava meio aérea, mas achou melhor não comentar nada. Era a primeira vez, desde março, que não a via com cara de choro. Tomaram café quase em silêncio até que Rosângela levantou para se despedir. Depois de um longo abraço na vizinha, disse para ela não se preocupar, que o marido passaria lá para devolver os 150 reais assim que o pagamento saísse, no dia 20.

– Das Dores, muito obrigada por tudo. Seu café estava uma delícia, como sempre. Depois a gente se fala.

Maria das Dores e Adalberto passaram o dia pensando em Rosângela. Adalberto, aliviado por não precisar dar desculpas pela falta de dinheiro. Das Dores, preocupada com o comportamento da amiga.

Rosângela passou boa parte da manhã sentada na praça em frente à rodoviária, criando coragem. Até que viu a hora e correu para garantir a passagem no próximo ônibus, para não chegar muito tarde na casa da mãe. Não queria assustá-la.

– Uma passagem só de ia, por favor, moça.

– São cento e oitenta reais.

“Bom, ainda sobra dinheiro para comer na estrada e pegar o táxi para chegar na casa de mãe”, pensou.

Já dentro do ônibus, mandou uma mensagem pra Adalberto.

Quando o telefone vibrou avisando que chegou mensagem, o marido de Rosângela estava tentando decifrar o comportamento da esposa naquela manhã. Demorou para tirar o celular do bolso.

“Deixei comida pronta pra você esquentar. Não me espere para o jantar. Você deve 150 reais pra Das Dores.”

Adalberto terminou de ler a mensagem com a serenidade de quem sabia que o dia não terminaria bem. “Ela não volta mais”, pensou em voz alta, com uma ponta de tristeza na voz, enquanto o cortejo seguia em direção à Igreja.

Rodada 103

Fotografia: Roberto Abreu
Conto: Patrícia Cunegundes

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