Hoje eu sou mais velha do que ele

Foi uma campanha arrasadora. Para vereador. Era um rapaz cheio de energia que tinha o incomum talento de conseguir encaixar uma piada no meio de um discurso comovente. Era impressionante. O assunto podia ser espinhento: conflito na Palestina. Não importava. Ele mantinha atenção, riso e respeito. Pena que não tenha anotado essas pérolas na época. Mas como poderia?! Quando tento resgatar esses discursos, perguntando aos que o conheceram, as pessoas chegam a sorrir – rir até, mas não se lembram exatamente das piadas. E mesmo que pudessem, a graça dessas piadas sobreviveria aos dias de hoje…?

Ele era um moço bonito também. Assistindo outro dia um programa de entrevista, foi que me dei conta. O apresentador pergunta aos convidados qual foi seu primeiro “crush”, ou seja, quem teria despertado seu coração, sua atração pela primeira vez… Aí me recordo… Eu podia estar onde estivesse, mas saía correndo quando sabia que ele tinha chegado. Eu era tão pequena e nova! Dei-lhe o chocolate que ganhei de presente de aniversário. Ele disse que não tinha conseguido almoçar porque tivera um dia cheio de encontros nos sindicatos e associações. Sorrio ao ter a consciência de que ele foi meu primeiro “crush”…

Mostraram-me hoje a foto do cartaz de sua campanha, quer dizer, a foto do que restou de alguns cartazes colados em algum muro da cidade. Resquícios de cola, sorriso e lembranças de alguém que partiu tão novo. Nem chegou a assumir o mandato. Seremos todos assim? Restos de imagens internas e externas, sorrisos de piadas das quais não recordamos? Ando melancólica desde que decidi escrever sua biografia. Quem sabe quero lhe fazer uma última homenagem, lhe ofertar um pedaço de chocolate amargo e abstrato das tristezas que não entendemos, da saudade inominável dos que nos deixam tão cedo.

Rodada 103

Fotografia: Fabio Giorgi
Conto: Eliane França

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