Foram exatas 1.637 flores vermelhas. Pintou com carinho e esmero. Quando iniciou o trabalho, ainda não sabia ao certo o que faria com aquele tecido diáfano. Eram alguns metros e estavam aguardando uma utilidade.
Assim que tudo começou, refugiou-se na casa da avó. Cidade pequena do interior, casa vazia, fechada há anos… muitas lembranças…seria o local ideal para sua quarentena. Passou os primeiros dias limpando tudo e organizando as coisas. Encheu freezer e despensa. E começou a descobrir seu novo mundo.
Abriu e fuxicou tudo. Foi quando achou o tecido num baú. Poderia fazer um belo vestido, muito rodado, para uma festa que, certamente, aconteceria quando tudo voltasse ao normal. Ou, talvez, toalhas de mesa para os almoços com os amigos.
Pois bem, fechada a porta de casa, impondo-se o necessário isolamento, cheia de álcool em gel, máscara e outros cuidados, resolveu pintar um pouco para distrair. A avó lhe ensinara bordado, tricô e pintura em tecido. Como não podia ir à rua, deu um jeito com os restos de tinta que encontrou na casa. Ajudaria a passar o tempo. Criou o desenho e riscou as pequenas flores em um pedaço do tecido. De vez em quando, avançava mais um pedaço e, quando se deu conta, o tecido havia acabado. A paciência também. E a esperança. E a tinta. O que havia crescido eram os cabelos brancos e o diâmetro da silhueta. Também os pelos na perna. E a vontade de sair voando.
Mas era forte e conseguiria resistir. Por vezes, estranhava a diminuição do movimento na rua. Mas todos deviam estar se protegendo. Como ela. Assim que acabasse o tormento, poderia sair em segurança. Mas ainda não era a hora. Quando seria?
Lá longe, em isolamento social, sem TV nem sinal de telefone ou internet, estava a salvo de tudo. Comia pouco, mas a comida estava quase no fim. As sobrancelhas precisavam de cuidados. E as unhas.
Deveria pensar em coisas práticas, mas só tinha olhos para sua pintura. Usou todo o tecido pintado para fazer uma cortina. Quando tudo estivesse normalizado, abriria as portas, as janelas, o coração. Perdeu a conta dos dias. Meses? Anos? O sinal virá da igreja, pensa todos os dias enquanto olha através do vidro da janela fechada. Quando todas as portas da igreja se abrirem e os sinos voltarem a tocar, este será o sinal de que passou. Tudo passou. E a vida voltara ao normal.
Passa os dias contando e retocando as flores. Às vezes, olha para a cortina e pensa que daria uma bela mortalha. Ou uma fantasia de carnaval, tem tecido para um bloco inteiro… quem sabe? Fica sempre de olho, mas não consegue perceber a cidade cada vez mais deserta, nem o calor nauseabundo que entra por debaixo da porta… todos se cuidando, ela continua a pensar. Mas, um dia, quando tudo passar…
Rodada 103
Fotografia: Anita Handfas
Conto: Maria Emília Algebaile