Encarcerados

O rangido das portas e o rancor no andar dos nazis irrompem a quietude do sótão e nem os ratos incomodam tanto muito menos as traças e os lentos cupins. A menina está e da fresta adolesce aos poucos e imagina o futuro: o transpirar das tulipas em sóis e lágrimas… o simples caminhar pelo canal ou o pedalar pela espinha dorsal de vielas floridas de mel e assistir o reflorir da Europa sem a morbidez da segregação.

As primaveras galopam e de repente mais que de repente o fascismo retorna e chega até um país da América do sul, um país em chamas.

Os Brasis escutam o manchar da flâmula em tintas de sangue e da janela ouve-se o voo da esperança e o delicado pouso em minhas mãos… ela me conta, sussurra e avoa…

Um dia, espero que logo, pedalaremos com o ímpeto de quem retoma a vida.

Anne, por aqui as flores ainda choram, as pétalas mornas e úmidas exalam o peso do ódio… por dentro, desejam o reflorir.

Espero tempos melhores, seivas e fios de sol.

Rodada 103

Fotografia: Ana Pose
Conto: Adriana Vieira Lomar

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