Ela acordou de madrugada pensando nos nove quilos que deveria perder. Nove, nove! Como é que ela conseguiria tamanha façanha? É que não se via mais com a mesma determinação dos vinte e dos trinta anos. Em um mundo cheio de privações, incluir mais uma, ou mais algumas restrições, soava-lhe como entrar em uma câmara de tortura ou praticar um exercício de autoflagelação. Por que seguir por este caminho quando ninguém se importava?
Nove, nove quilos a perder. Ela precisava emagrecer. Ansiava pela atividade física livre, longe da poluição do ar, da poluição sonora e visual das academias de ginástica. Que graça tinha? Queria mais… Queria o ar puro, o cheiro da terra molhada e das flores da estação. Queria o som dos pássaros e do cascalho sob seus pés. Queria o arar da terra, a colheita, o trabalho braçal, exaustivo e gratificante que só os lavradores conhecem. Mas não estava lá e, de alguma outra forma, tinha nove quilos para perder.
Sentiu o peso de seu corpo na cama e percebeu que eram nove quilos de preocupação, nove quilos de planejamentos frustrados, nove quilos de angústias (des)necessárias. Não havia nada a fazer a não ser a pior das dietas. Não havia nada a fazer a não ser perder os nove quilos adquiridos com risadas, taças de vinhos, as melhores companhias e a boa mesa. Não havia saída a não ser recusar bons momentos em prol daqueles nove quilos que sobravam.
Amanhã, ou melhor, hoje mesmo ela começaria! Já podia se ver correndo na esteira, sentindo o suor no rosto, e vendo os quilos perdidos na balança. Menos um, dois, três… nove. Nove quilos perdidos! A determinação trazia o sono de volta. Um bocejo apareceu ao imaginar um delicioso prato de salada. Deu-se conta de que já era quase manhã, mas a academia ainda não abrira. Virou para o lado, aninhou-se ao marido que dormia profundamente e se conformou:
— Nove quilos. Na segunda-feira eu começo.
Rodada 102 Invertida
Conto: Rachel Jaccoud Amaro
Vídeo: Magda Rebello