[a hora e a vez]

sobretudo, havia poeira. discos empilhados, roupas que um dia foram moda, deixaram de ser e, de tanto passarem os anos, voltaram a causar boa impressão. embalagens, latas coloridas, caixas de não-sei-quê. fotos, muitas fotos, memórias imersas naquele abandono. não sabia por onde começar, nem sabia se era mesmo preciso começar. às vezes há tanto por fazer, e às vezes mesmo depois de feito tanto parece restar uma montanha a atravessar que não é incomum dar vontade de bater a porta e ir tomar um chope na esquina. ou convidar alguém para passar horas sem propósito. ou se enfiar em uma coberta velha e ligar a tevê. tergiversar, um dos grandes prazeres do mundo. mas também chega, é claro, o momento de interromper esse processo de adiamento. embora não estivesse pronto, sentia-se mais disposto. ainda que por alguns instantes, era hora de ser inteiro. talvez fosse sua última visita, talvez nunca mais quisesse estar de volta àquele ambiente que ecoava a infância e tudo o que viria depois. vamos lá, comece por algum ponto, dê o primeiro passo, entre outras retóricas prontas orbitavam, a tentar convencer que viver é uma equação fácil. deteve-se a observar todos aqueles vestígios-registros de formação: abraços, partidas, amores e cansaço. sobre uma velha máquina de costura, ferro e ferrugem, um livro, dos raros livros que lera mais de uma vez. dentro dele, uma foto, esquecida anos a fio. esmaecidos personagens aguardavam o resgate. pelo basculante, a noite chegava, mansa, a confirmar que o tempo fizera seu trabalho.

Rodada 102

Conto: Robson Aguiar
Fotografia: Patrícia Cunegundes

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