Nesta manhã em que os sabiás cantarolam hinos suaves e as maritacas com suas línguas afiadas feito cuchila racham a manhã, estou em um colchonete treinando os braços para que fiquem fortes e rijos. O sabiá solto aprecia o azul em meio a ramalheira enxugada pelo vento ora úmido ora seco. Já a maritaca, presa em uma gaiola, implora por liberdade em repetidas sílabas palatais: quaquá, raquá.
Apesar de não saber voar e muito menos maritacar e temer com ardor as alturas, empulho a anilha de 20 kg porque a médica mandou que assim o fizesse. Meus braços ainda sofrem de uma temerária bursite arrumada em uma viagem que fiz, não me recordo o ano. E aqui estou deitada, joelhos semiflexionados, empuxando em direção ao anil e pousando sobre o peito, no ir e vir ritmado: 1,2,3.4…
Meus braços ameaçam fraquejar à medida que a memória me assalta. Lembro-me quando corria pelo caminho das goiabeiras, firme no propósito de mergulhar no azul daquela piscina invejada por uma criança como eu. Ora inquieta, como as maritacas, ora doce, como os sabiás, descia a levada em disparada rumo ao desejo do mergulho. Antes dava um alô à Dona Nazaré, caseira que servia de guardiã da única casa da fazenda que tinha uma piscina.
A ordem era expressa:- na minha ausência não autorizo meus sobrinhos pequenos a tomarem banho de piscina, escutou, Nazaré? Como tinha dito, eu parecia uma maritaca e a ideia de mergulhar sozinha em meio aos galhos recheados de goiaba me apetecia e fazia de mim uma espécie de mulher maravilha que aos seis anos sabia nadar e dar braçadas ao vento feito sabiá com suas asas a caminho do inusitado.
E lá fui eu… Nesse momento em que estou aqui empurrando e trazendo de novo a ardência daquele baque: a piscina esvaziada para limpeza não estava nos meus planos. A anilha agora se volta contra o meu peito maduro. Impossível esquecer a dor: Aí, será que morri? Depois lembrei de ter sonhado a fala da Dona Nazaré: -1, 2, 3. 4. Empurra, salva, pra menina poder um dia voar e chega donde ela quiser. Santo Pai, dê força pra tu, Manuel. Salva a menina, salva, é arteira, uma pestinha, mas eu lhe quero bem.
Alívio, Manuel me trouxe de volta, mas ainda me recordo da crueza dos azulejos escorregadios, o sangue escorrendo na minha fronte miúda, o balbucio e o choro compulsivo nos braços dela, a dona da vassoura que tangia meninas e meninos sonhadores.
Eu tinha certeza da delícia de mergulhar e nadar e olhar pelos vãos dos galhos adocicados pelo sumo das goiabas. Queria por instantes ser sabiá e assossegar a inquietude dos meus seis anos. Um dia morrerei, pensei. Mas ainda estou a voar tendo certeza da finitude.
A maritaca parece desejar o infinito, grita como quem desmaia, mas continua presa na gaiola. 1,2,3, 4… Empurra e desce, não fraqueja mulher! Nada é pior do que morrer por segundos e nada é melhor do que ter tido a sorte de Manuel aparar os arbustos do casarão da casa dos umbrais da infância.
O chão da piscina vazio desliza e apunhala e tece as manhãs de incertezas, incertezas quanto à finitude. Antes do mergulho final, soltarei a maritaca e enfrentarei o inevitável.
Rodada 102 Invertida
Conto: Adriana Vieira Lomar
Fotografia: Anita Handfas
Quanta beleza nas palavras, Adri! Como sempre me encanta. Adorei.
CurtirCurtir