Sou uma gigante. Literalmente. Não sou uma gigante do esporte, ou uma artista soberba, tampouco uma espécie de heroína humanitária. Não tenho nada de especial além da minha altura. Meus pais notaram meu crescimento acelerado quando eu ainda era um bebê e ao contrário dos meus semelhantes, que costumam ser medidos para entrarem no livro dos recordes, não foi identificado em mim nenhum distúrbio genético ou glandular. Simplesmente fui crescendo de forma anormal. Cresci tanto que chego quase ao dobro da chamada última mulher mais alta do mundo. Ela media um pouco mais de dois metros e meio. Eu cheguei a cinco. Se ainda houvesse circo de aberrações, eu seria a estrela principal. Mas a quem quero enganar? Sou a protagonista das redes sociais que meus pais foram obrigados a gerir para custear os gastos de possuir filha tão incomum. Faço meu próprio circo virtual porque preciso me sustentar e as pessoas adoram a minha inusitada vida. Quanto mais seguidores, mais propagandas, mais vil metal… Eu sempre tentei ter o mínimo problema com minha altura, malgrado a ironia. Desde nova, tive terapeutas e aconselhamentos vários. Porém, eu agora tenho um problema sério pra resolver. A humanidade chegou a um nível de loucura que daqui a pouco vão correr atrás de mim com tochas, querendo eliminar a nova Frankstein. É claro que já me chamaram para resgatar gatinhos em árvores e ajudar em algum incêndio. Evidente que me pediram para ver algo além daquele prédio e outros “serviços”. Mas desde os anos vinte desse milênio as catástrofes ambientais se acentuaram, novas doenças apareceram e a dita humanidade ao invés de evoluir, regrediu. Acham que a terra é plana, são contra as vacinas e têm a convicção de que um quarto reich resolveria tudo. Eu fui intimada a dar minha contribuição. Minha vontade é recusar. Mas onde uma mulher de cinco metros se esconde? Como executar uma fuga se toda a cidade te olha, mesmo que para isso tenha que colocar a mão como viseira sobre os olhos? No momento, aguardo. Talvez depois daquela igreja haja um desfiladeiro onde os homens comuns não consigam me alcançar rapidamente e eu possa desaparecer por ali. Eu, a Gulliver de saias, teria tempo para escapar antes que aviões me fizessem de King Kong?
Eles me convocaram para tapar o sol. Sim, você não leu errado. Eu tenho que esconder o sol, fazendo uma descomunal sombra com a minha altura. E disseram que pagariam muito bem. Chegaram a apontar: “Veja, ele aparece ali atrás daquela igreja.” Me deram até um pano enorme e dicas ridículas para que eu o esticasse o máximo possível quando o mito chegasse. Hasteasse o pano verde e amarelo sobre minhas costas como uma bandeira bem na hora em que o sol desponta fortemente na praça. Assim, a multidão que eles esperam que chegue amanhã não derreteria ao sol do meio dia. Ademais, eles veriam que a gigante o apoia… Respiro e penso em como escapar. Não sou suficientemente grande para esmagá-los com meus pés. Talvez eu fique mexendo o pano na frente deles e diga que é impossível, que o sol é touro indomável… pelo menos não me deram uma peneira para tal função… Talvez eu tome uma montanha de comprimidos hoje e não desperte amanhã. E fique deitada eternamente, quem sabe.
Rodada 101
Fotografia: Rachel Jaccoud Amaro
Conto: Eliane França