Ele não podia acreditar ao ver suas próprias mãos.
Calos, dores, linhas marcadas. Assim eram as mãos de seu pai, após uma vida inteira de trabalho, altos e baixos, travessuras e necessidades. Mas não eram as mãos dele.
Ele não podia acreditar ao sentir suas próprias mãos.
Abria e fechava, gemia. Eram a consequência de um trabalho árduo, executado com cuidado e até com certa maestria, mas não sem sofrimento. Será que se lembraria desse momento para sempre?
Ele não podia acreditar ao lembrar de suas próprias mãos.
Perdera o tato, áspero era o toque. O cansaço extinguia-lhe o prazer do amor e da descoberta. Será que seu pai outrora sentiu-se assim? Não sabia dizer.
Ele não podia acreditar ao se emocionar com suas próprias mãos.
Teria sido tudo em vão? Sentia-se explorado. Afinal, dera seu suor e nada recebera em troca. Sentia-se aliviado. Afinal, não teria mais que se sujeitar àquilo. Acabou. Estava livre.
Ele não podia acreditar ao ver suas próprias mãos.
Mas sentia, lembrava, emociona-se, transformava-se, aproximava-se de seu pai. Nas montanhas lavradas, deixara uma parte de si e agora teria espaço para carregar mais daquele a quem admirava.
Rodada 101
Fotografia: Luiz Felipe Sandins Mendonça
Conto: Rachel Jaccoud Amaro