Notei quando você esqueceu
seu brinquedo perto do poste.
Eu vi. Não avisei.
Tinha uma linda cor.
Esperei que você se afastasse
para ter certeza de que não retornaria.
Custo a desapegar. Por isso a cautela.
Nunca tive um brinquedo
para chamar de meu.
Eu sempre fui um brinquedo.
Daqueles esquecidos.
Daqueles feitos sem vontade.
Longe daqueles iguais a mim.
Saudosa daquilo que não existiu.
Gostei do seu brinquedo.
Lembrou-me a criança que habita em mim,
que, esquecida, adormece em um canto
de um amplo sem fim.
Vou colorir de sonho a terra.
Erguerei um castelo cinza.
Lançarei minha sombra no chão.
O sol fechou. A noite se abriu.
Larguei o brinquedo.
Você retornou – eu não vi.
Rodada 101
Fotografia: Ângela Márcia
Poema: Cristina Fürst