Nassor

Nassor nasceu parrudo e com os olhos vivos e sagazes numa família que fez o possível para ele ser aquilo que a avó Núbia tanto desejou. Ela quem escolheu o nome em homenagem ao pai Nassor, trineto de Aziza e Kito. Aziza deu à luz a Makoni, no porão do tumbeiro “boa intenção”. Partiram do Quênia e aportaram no Cais do Valongo falando Iorubá e sabendo fazer tranças mapeadas de afeto e coragem. O traçado de cada uma desembocava em moradas seguras e mesmo com o mudar da rota, o desejo de voltar à terra prosseguiu.

Nagô sabe a verdade que de boa intenção nada tinha aquele navio fétido. A preciosa Aziza teve Makoni, o avô de Nassor, tendo os ratos e não os amigos queridos como primeiras visitas. Kito, o pai, se perdeu dela, foi parar em outra gleba de terra na qual o senhor de terra enriqueceu.

Nassor começou a morar nas ruas, o corpo cedeu ao vício de dormir muito porque não come há tempos, e para quem não sabe, dormir alenta e mesmo na falta, o sujeito amatuta-se de sossegos. Noite passada houve um pacto entre Nagô e Nossa Senhora: “vamos relembrá-lo que Aziza e Kito eram raros, Makoni, o caminho, Núbia, o ouro que desejou os melhores votos à filha rara- criar um filho vitorioso, como foi Nassor, o avô”.

Em amanhecendo, Nassor cantará ” Is this Love” e passará a ser visto, lembrarão que o sorriso dele faz falta: alumbra caminhos toscos, os caminhos pelos quais percorreu. Sorri como quem ama e rememora as medalhas penduradas no seu pescoço, os batuques na garagem da casa de Heitor, e o tempo em que sorria sem demora. Em suspiros, galopa atrás do tempo que já se foi. Sonha na cama fétida e fria da larga Avenida Nossa Senhora de Copacabana e mesmo sem abrir os olhos a manhã renasce em azuis e laranjas, testemunhando o renascer do vitorioso Nassor.

Rodada 101

Fotografia: Roberto Abreu
Conto: Adriana Vieira Lomar

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