Da minha janela

Da minha janela vejo um parque. Arvores, arbustos, grama cortada rente. Meu aniversário foi um dia antes de ser decretado o isolamento, quarentena, evacuação, bloqueio, exclusão ou seja lá que nome se dá hoje a isso. Na tarde de meu aniversário eu tinha encomendado um bolo na padaria, duas garrafas de dois litros de refrigerante, distribuí entre babás e crianças que brincavam no gramado, entre as árvores e arbustos. Algumas crianças pediram pequenos pedaços das sobras do bolo e com eles alimentaram o casal de cisnes que habita, ou habitava, o lago. O parque que vejo de minha janela tem até um pequeno lago. Dizem que há muito tempo era o jardim de uma aristocrática casa, hoje demolida ou transformada em uma repartição. Dizem que há muito tempo o casal de cisnes chocou uma ninhada, mas contam que os ratos ou os mendigos comeram os cisnezinhos, depois disso nunca mais ninguém viu ovos no ninho dos cisnes. Dizem que não são cisnes, talvez sejam patos ou mesmo marrecos, mas eu prefiro acreditar que sejam, ou eram, ou serão, cisnes. Hoje não se vê nem mais os mendigos no parque, nem as crianças, nem as babás. A grama não cresce. Os ratos estão cada vez maiores. Fico o dia inteiro na janela, esperando ver alguém passar, sentar no banco lendo um jornal, ou, alegria infinda, um casal de namorados como antigamente, ou um casal de cisnes enamorados – mas apenas um lixeiro solitário, todo protegido em plástico preto brilhante como um robô, talvez seja um robô, varre as folhas secas, cada vez menos folhas secas, cada vez mais dias entre um aniversário e outro, cada vez mais riscos em sair à rua especialmente para babás, crianças, cisnes ou velhos como eu que cada vez mais perdem a conta de quantos dias e quantos cisnes se foram para sempre desde que ouvi a última criança no mundo cantar: “Parabéns, vô!”

Rodada 101

Fotografia: Magali Rios
Conto: Jozias Benedicto

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