Pela janela do ônibus vejo rostos desconhecidos a cada dia, esperando por suas respectivas conduções na calçada. Uns reclamam, impacientes, de sua demora e da longa espera ali, parados; outros falam do tempo e dos raios que despontam do céu, predizendo o calor típico do verão carioca que fará dali a algumas horas. Uns conversam animadamente acerca do final de semana passado na praia ou em casa – neste caso, procurando a esmo um filme ou série para fazer passar o tempo já gasto com tal tarefa; outros, já na segunda-feira planejam e anseiam pela chegada da sexta, do bar lotado, da festa com bebidas baratas.
Pela janela do ônibus assisto ao motorista sair de seu assento, ir até a moça da calçada e pedir um café quente para aguentar mais um turno de trabalho provavelmente exaustivo com um largo sorriso no rosto, contrariando a lógica das sete da manhã. Sem nem beber um gole daquela bebida devido à pressa, despede-se da senhora com um afetuoso “obrigado-bom-dia” e segue sua vida – e a nossa também – através das ruas já apinhadas de veículos.
Pela janela do ônibus, depois de criar mentalmente realidades paralelas tão artificiais quanto a paisagem acinzentada da maior avenida do Brasil – dizem as más línguas que perde somente para uma de São Paulo, mas ainda não tive a oportunidade de medir cada uma com uma fita métrica e dizer, por mim mesma, qual delas seria realmente digna dessa alcunha -, apago momentaneamente em meu assento azul desconfortável, entediada demais com as cenas reais que vejo diariamente: um verdadeiro caleidoscópio de carros de diferentes modelos, tamanhos e cores ziguezagueando pelas pistas, encontrando brechas por onde possam escapar do interminável engarrafamento; um arco-íris de jovens, adultos e crianças trajando seus respectivos uniformes, roupas sociais, vestidos, casacos e expressões faciais; o relógio digital que insiste em marcar a temperatura, o horário e o dia errados; o outdoor que serviu há anos de tela para algum artista anônimo pintar o que pressuponho ser uma genuína obra de arte; seguindo a lista, vejo ainda alguns ambulantes que mesmo lá de fora quebram o silêncio da viagem, gritando ofertas dos mais variados passatempos que empresas multinacionais insistem em cobrar tão caro – paradoxalmente, há quem prefira a mesma iguaria por um preço bastante superior. De onde estou, torço mais é para que a porta traseira se escancare e deixe o pobre vendedor satisfazer a sede de consumo por chocolate dos passageiros por menos de cinco reais.
Assim, depois de analisar tudo isso pelo o que eu acredito ser a noningentésima nonagésima sétima vez, durmo profundamente e tenho sonhos que jamais teria em tão pouco tempo em minha confortável cama, à noite. Acordo com o alarme biológico, até mais certeiro do que aquele que utilizo toda manhã às cinco, pronta para puxar a cigarra que avisará ao indivíduo lá na frente – agora a mim invisível devido à quantidade de pessoas que nos separa – que preciso novamente deixá-lo a sós com o final do percurso que deve fazer até o terminal. Teria ele terminado seu delicioso café, comprado há algumas horas, ou será que, ao arrancar ou frear bruscamente, deixara derramar uma parte do que estava no copo?
Na calçada, verifico a hora, praguejo o habitual atraso, o já intenso calor e o fim do final de semana. Da janela do ônibus, vejo agora um menininho ocupar o local em que estava até poucos segundos atrás. Nossos olhares se encontram rapidamente – no que será que pensa quando vê o mundo sob meu ponto de vista? O veículo parte, levando consigo o pequeno estranho e toda aquela massa de gente que passou por mim e sequer me viu, embora muito tenhamos interagido nesse pequeno espaço-tempo que o destino nos pôs desde as sete da manhã.
Rodada 101
Fotografia: Patrícia Cunegundes
Crônica: Amanda Santos