atravessar(-se)

de repente
sem ocasião de preparo
chegara a hora de se lançar

decerto seria pretensão
imaginar que o enredo começara por ele
mas não lhe era autorizado olhar para trás

mesmo assim, com tão pouco
se dispunha a seguir
era tempo de livrar-se de adornos
de afastar a tentação do muito dizer
tinha o bastante

por vezes se detinha
a investigar o espaço
na espera de que as palavras lhe viessem em socorro:
“dê-nos a mão, não tenha medo”

a expectativa de um desfecho
pairava
– antiquada tríade, início, meio e fim –
o que o seduzia, contudo
era o atravessar(-se)
por outras cores perceber-se no mundo

do outro lado
ecos de uma velha canção
anunciavam novos roteiros

haveria ainda muito por fazer
ele sabia
mas não estaria só

Rodada 100 – Telefone sem fio

Fotografia: Magali Rios, inspirada no texto de nosso post anterior: Lula Livre
Poema: Robson Aguiar, inspirado na imagem deste post

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