Sedento por vida, busca o homem a tela recém pintada. Segundos atrás, os lugares pelos quais se habituou ficaram na memória como a lembrança das nuvens imóveis à ação da impermanência. O palco, as mãos e os braços, os beijos e os afagos, a textura do toque e a melodia das vozes estão no caminho do amanhecer. O sol doura as pedras do riacho e acaricia os brotos das flores que exalam as primeiras gotas de unguento: as pétalas sedosas servem de emplasto e acariciam a textura rugosa do coração cansado do homem sem rosto.
No rastro de luz há ondas que talvez venham do rio. Não se cansa de olhar e perde o medo da morte – as pedras vão dar na foz. Antes as águas passaram por casas, templos, ruas e gentes.
O homem segue a correnteza e deixa para trás a imobilidade do céu feito de plástico e das cortinas eternamente jovens. Como disse, ele não tem medo da morte e segue o caminho do vento.
Rodada 100 – Telefone sem fio
Fotografia: Marcia Magda Marcos, inspirada no poema de nosso post anterior Avesso
Conto: Adriana Vieira Lomar, inspirada na fotografia deste post
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