Eis Eco, que repete ruídos: da pergunta que margeia seus ouvidos – “quando isto vai acabar?” –, apenas responde, rouca e vacilante, “acabar, acabar…”.
Mas e o fim, que nunca chega?
Ela, cuja voz só serpenteia em bocas alheias, bem conhece a angústia que sai das janelas dos apartamentos, das varandas das casas, dos quintais, dos quartos – mas o que pode fazer, senão entoar a mesma lamúria de outras gargantas?
Enquanto isso, a criança questiona à mãe, que pergunta ao marido, que remete ao irmão, que indaga o cunhado, que interroga o amigo, que se volta ao estranho – “quando isso vai acabar?”. Mas de Eco, só se ouve o mesmo verbo, com um acento de incerteza na última sílaba: “acabar, acabar”.
Que não a julguem, vocês, tribunal de citadinos enclausurados dentro da mesma dúvida, pois Eco deseja também abraçar a cidade – contemplar suas margens, beijar seus rostos, tocar suas árvores, sentir seus parques, escolas, avenidas, carros, viadutos… Quem não sente falta da liberdade?
“Liberdade, liberdade…”
Do alto de um prédio, um menino capta sua solidão. Ninguém por perto. Parece que aproveita a serenidade da ausência das centenas de pessoas penetrando suas entranhas diariamente para exercitar sua vaidade. Sim, pois, dali, o garoto repara: a cidade parece contemplar-se eternamente naquele laguinho. O que será que pensa de sua imagem?
Para fazer-lhe companhia, toma um lápis, uma folha de papel e seu conjunto de giz de cera; franze o cenho, morde a ponta da língua, traça riscos – e o coloca ali, na paisagem.
Eco emudece.
Liberdade.
Rodada 100 Telefone sem fio
Fotografia: Ângela Márcia, inspirada no texto de nosso post anterior Imargens
Texto: Amanda Santos, inspirada na fotografia deste post