Mitologia contemporânea

Dilapidei desde muito cedo
meus sonhos
em busca de um horizonte bom para se olhar.
O futuro, lá, distante,
ia sendo desenhado
com o pincel de minhas escolhas.

Antes, tivesse vendido minha alma
e planos
ao diabo,
em vez que cedê-los aos patrões
aos quais me submeti
em troca de um ou dois salários mínimos
e umas horas de desassossego.

Ao menos, teria um inferno onde morar,
um pedaço de lenha chamuscada para descansar
Mas agora – agora nada tenho!
Total niilismo.

Ao pensar no passado certo que se mostra tão errado
Não nego: o arrependimento arranha a garganta
Vejo o horizonte, onde finalmente cheguei, queimando
e as imagens idílicas, antes sonhadas,
borradas por um cinza estranho.

Ora, parece que os loucos estavam certos:
Olhando daqui, o mundo parece plano
Logo ali, o que se vê
não é um penhasco?

Remem, remem, marinheiros!
Remem no sentido contrário!
Remem com vontade,
contra a correnteza que vos leva
Mas não se esqueçam de pôr um sorriso no rosto
Símbolo do fim trágico que vos espera.

Ah, quem dera no passado
ter vendido as lágrimas, a alma, os planos etéreos
Os estudos, o esforço, o mito do mérito
O tormento, a ansiedade e o futuro incerto
Tudo ao diabo!

O inferno não seria o mesmo?

Teria ao menos um terreno para morar,
Um fogo para me aquecer
(quem sabe
até um emprego, meio período,
como barqueiro?)
Corram: há boatos de que Caronte
está em vias de se aposentar!

Rodada 99 Invertida

Poema: Amanda Santos
Fotografia: Rachel Jaccoud Amaro

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