As dores ficam guardadas no chão barrento de um rio límpido. Os olhos ardem e latejam deixando a face enrijecida. Tudo culpa do ontem e da chuva torrencial. Depois a sombra da lua em estado crescente.
Ninguém acertou que hoje o tempo nasceria diferente: esplendorosamente inquietante. Um tom de guloseima no ar, um gosto de infância trava -língua de baunilha, dando um toque anos setenta ao insosso e necessário ano dois mil e vinte.
A esperança corre em direção ao céu buscando perfumes e redes dependuradas em árvores frondosas. As raras nuvens traduzem um estado perene de alegria a ponto de amar a marca de nascença, único item não envelhecido do rosto cansado de chorar.
Consigo encontrar uma tela de Miró entre o azul o verde e a liberdade das asas de um urubu. Não sei quem falou que urubu é bicho feio se as nuances entre o preto e o cinza e a textura do pescoço me fazem lembrar uma tela de El Greco.
Sorrio com os tons da primavera – o sorriso abre porque a menina que eu fui continua sendo apesar do rosto fincado pelas lágrimas.
Rodada 99 Invertida
Conto: Adriana Vieira Lomar
Desenho: Patrícia Cunegundes