Casa antiga, boca da rua. Era uma sala grande, o forro de madeira, parede de reboco estufado. Adorava dar petelecos naqueles pedaços de massa e tinta – algo entre o cinza e o azul sisudo – e vê-los despencar e se desfazer em outros pedaços menores que eu amassava com os pés e transformava em fragmentos que, aos poucos, esfarelavam e deixavam de ser qualquer coisa. Os tacos, foscos, pediam sinteco novo. No canto, sobre a mesa de fórmica vermelha, uma lâmpada acesa teimava. Na parede maior, uma penteadeira, coisa esquisita pra se ter naquele cômodo. Pela primeira vez tive altura pra me olhar no espelho sem pedir ajuda.
Nunca passávamos da sala.
Era manhã: mamãe dizia que ela não atendia depois do almoço. Portas e janelas fechadas, cortina pesada de poeira mantendo as cores do dia lá fora. Aguardávamos de pé, a conversa suspensa, liturgia severa de dois ou três minutos longos demais pruma criança parar quieta sem inventar o que fazer. Hora de reclamar:
– Tá coçando, mãe.
– Fica quieto, menino. Dona Conceição já vem.
E logo vinha, passos arrastados do fundo do corredor, vestido sóbrio e cabelos grisalhos bem compridos. A fala agalopada, me cobria de rezas e ritos, as folhas de mamona fechadas nas mãos com força. Ao final, se sacudia toda, o quebranto indo embora, dizia. Levava junto o cobreiro que, todo ano, no mês do meu aniversário, cobria meus lábios e narinas. Dava vergonha, queria faltar aula. Mamãe não deixava.
Soube, semanas depois, da morte de Dona Conceição. Com ela, os ritos, o corpo miúdo sacudindo com força, as rezas sussurradas, a casa antiga da beira da rua, o cobreiro que nunca mais tive, rastros de tempos de não entendimento, de dias quase felizes.
Rodada 99 Invertida
Conto: Robson Aguiar
Imagem: Ângela Márcia