[horas inteiras de descuido]

Não seria uma noite qualquer, e ela se sentia inteira como há muito tempo talvez não tivesse a coragem de se reconhecer. Sim, havia muito por vir, mas era como se toda travessia até ali tivesse servido para que as coisas fossem sendo aos poucos deixadas de lado, até mesmo eliminadas para que, enfim, tempo e espaço se ocupassem apenas do corpo presente, existência descoberta sem aparas, sem adornos. Em vez de acumular experiências, extirpá-las, voltar-se ao osso da matéria. A vida não era dada a espetáculos, a matéria da existência não era extraordinária. Não lhe era permitido ignorar.

Nítida a lua cheia, horizonte gigante de encanto e luz. A felicidade é um estado provisório, lera dia desses, grafite no viaduto, verdade pungente cravada no cimento. Sim, é, e que importa ser mera passagem, uma, duas ou três ocasiões de puro descuido de sei lá que duração durante uma vida inteira? Pessoas de imensa sorte poderiam experimentá-la mais vezes até, sabe? Há fugacidade na beleza, há também nos dias embaçados, nada há que não esteja permanentemente de saída, há mais sabedoria nos silêncios. Chega de coisa, cuidemos da vida, e nós nesse cinismo teimoso, cismando não ser com a gente… De repente, alguém toca seu ombro, e ela desperta. Está na hora. Todos estão prontos. A cerimônia iria começar.

Rodada 98

Fotografia: Ana Pose
Conto: Robson Aguiar

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