A escolha

Após um mês de isolamento ela foi invadida por uma vontade incontrolável de correr. Achou engraçado, porque correr não era algo que ela fazia antes, quando a vida era normal. Correr parecia-lhe perigoso, incontrolável, exaustivo, imprevisível. Agora, entretanto, parecia-lhe libertador.

Enquanto corria, ela liberava todo o ar que estava preso dentro dela, esvaziava pensamentos mesquinhos, resgatava sonhos e desejos, fugia por espontânea vontade para um lugar desconhecido, como se pudesse enganar o inesperado da vida. Ao correr, ela podia ter de volta o controle de sua própria existência. Mas o que era a sua existência senão um conjunto de anseios frustrados e desentendidos?

Sentia-se sem graça. Começou a chorar.

As lágrimas trouxeram-lhe alívio. Sem se dar conta, aproximou-se da margem. Estava vazia e pronta para ser preenchida por algo bom quando viu que o seu rosto na água não era o de um patinho feio, mas de um belo cisne. Sorveu o ar fresco e finalmente entendeu que poderia escolher para qual reflexo olhar.

Rodada 98

Fotografia: Ângela Márcia
Conto: Rachel Jaccoud Amaro

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