Caminhou até o meio da sala.
O encontro duraria uma hora e por isso fez tudo de forma cronometrada. Tirou a roupa devagarzinho: a blusa godê em tons plúmbeos, os brincos de pérola falsificada, o sutiã tamanho GG, a saia rodada verde musgo e a calcinha cavada e rendada deixada por último porque esperava que ele a tirasse. Em vez disso o homem pediu que retornasse sem esquecer os detalhes. A ordem estava errada e além de tudo as botas ainda estavam nos seus pés. Qual seria a ordem? Ele não quis dizer e mandou que ela agisse com intuição de mulher.
Obediente, ela se revestiu até o limiar da sala e da porta. Quando se vestiu por completo, bateu a porta como quem parte sem volta. O homem surpreendeu-se e já estava com os dedos prontos para ligar para o site de encontros amorosos e reclamar da má qualidade dos serviços prestados quando a campainha tocou.
Ela voltou arrebatadora e sem dizer nada tirou as botas e dobrou a calcinha colocando-a no vão obscuro entre a sola e o cano da bota direita.
Tirou a saia, a blusa e o sutiã enquanto caminhava. O corpo imberbe, sedoso e em formato de violoncelo era tocado por mãos másculas que aos poucos afrouxavam-se à medida em que os fluidos se avolumavam e os pelos grossos e espessos tomavam por inteiro o corpo da mulher.
Enlouquecida, diante da lua cheia, uivou e enquanto o parapeito da janela madrugava-se, ela lambia os beiços, provando os sumos da pele, dos tecidos, sem esquecer dos pelos e dos cabelos.
As botas permaneciam no meio da sala e testemunhavam até o instante em que vestiu a calcinha e travestida de mulher bateu a porta.
Rodada 98
Fotografia: Walter Vinagre
Conto: Adriana Vieira Lomar