Meu punho dói. Os olhos ardem. E minha respiração está um pouco mais distorcida do que o comum. Quem vejo ali ao fundo? Nitidamente, um pescador, em sua serenidade que destoa da paisagem urbana. Foi ele regurgitado da água?
Estou procurando algo – algo que perdi recentemente. Perdi talvez no momento em que machuquei o pulso esquerdo, fazendo sabe-se lá o quê. A vista enturvecida me diz que também estou perdendo a visão, pelo visto. Paro e reflito: não, até que enxergo bem. A paisagem tem seus contornos normais. O que me parece errado é sua cor amarelada. Desde quando o mundo é assim tão em sépia?
O Sol se põe. Perdi a hora – será? Olá, tudo bom, companheiro? O senhor poderia me informar as horas?
Silêncio.
“… bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus. Santa Maria, mãe de deus, rogai por nós pecadores…”
É a Hora do Angelus, ali ao fundo. Perdi o relógio – será?
E me ponho a mastigar o fundo da memória, na esperança de alimentar alguma lembrança que dê a esse quadro em tons de amarelo algum sentido.
“… bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus. Santa Maria, mãe de deus, rogai por nós pecadores…”
“… bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus. Santa Maria, mãe de deus, rogai por nós pescadores…”
Percebi que eu ouvi errado a oração. Perdi a atenção – será?
E remoendo bem com os olhos aquele ser em sépia, devagar, reconheço a face rasa naquele rosto pouco expressivo. Reconheço a calma que aquele pescoço delgado sustenta – até o gosto daquilo que a boca reclinada pendura. A paciência que aquelas mãos seguram.
Engolindo a cena a frio depois de entalada na garganta, um estalo.
Ora, encontrei-me.
Rodada 98
Desenho (Caneta e marca texto sobre papel colorido): Maria Matina, feito com a mão esquerda, não dominante da artista.
Conto: Amanda Santos