Três em Quarentena

Segunda-feira. Sete horas da manhã. O despertador do celular toca e Ela de imediato levanta do sofá e bloqueia aquele som que indica que mais uma semana está começando. A madrugada foi agitada e o que Ela mais queria era voltar ao sofá e continuar dormindo. O pai acordou sabe lá que horas gritando “vamos embora”, “me deixa ir embora”. E quando isso acontece Ela levanta-se do sofá onde dorme há mais de um ano, e vai para a cama tentar acalmá-lo. No silêncio da madrugada, a voz forte de seu pai ecoa como se fosse um trovão. E Ela vai até ele para acalmá-lo. Deita-se na cama ao seu lado e enquanto faz carinho em sua cabeça branca, diz: “pronto, pronto, está tudo bem”, “o sr. está em segurança, não está sozinho, está com a sua família”. Às vezes, ele se aquieta mais rapidamente; outras vezes, não. Desta vez, seu pai demorou mais para dormir. E, por causa disso ou não, ao voltar para o sofá Ela havia perdido o sono.

A cena se repetiria outras vezes nessa quarentena. E lá se vão sete meses de quarentena. Sete meses desde que tudo virou de cabeça para baixo no mundo por causa de um vírus. Sete meses se passaram e os três continuavam sozinhos no apartamento: Ela e seus pais. Sem ter a ajuda de ninguém nos cuidados com o pai, Ela e sua mãe tinham que cuidar de tudo. E com o tempo tudo ficou mais difícil, mais pesado, mais tenso, mais estressante.

Nos quatro primeiros meses, Ela tentou manter o otimismo, estava um pouco mais leve, mais bem-humorada e até brincava mais com seu pai. Só que a partir do quinto mês de quarentena, o cansaço bateu à porta. E não foi pouco. Ela já não aguentava mais falar a mesma coisa para o seu pai, repetir todos os dias as mesmas atividades como se fosse um robô e, principalmente, ouvir as mesmas reclamações, lamúrias e chororôs de seu pai.

O dia a dia parecia com a letra da música “Cotidiano” do Chico Buarque: “Todo dia ela faz tudo sempre igual…”. Para Ela parecia mesmo que os dias eram todos iguais. Toda a manhã cumpria um ritual que poderia se estender até às 10h30 ou 11h, que incluía acordar, ir para o computador, tomar café, fazer os preparativos pré-banho, levantar o pai da cama, dar o remédio, fazer com que fizesse xixi, levá-lo para o banheiro. Enquanto a mãe lhe dava banho, ela lavava a louça, arrumava a cama para fazer os curativos, varria a casa, lavava os sacos das compras, lavava a sua roupa, mandava mensagens pelo WhatsApp e tentava fazer algum exercício antes que fosse solicitada novamente. Bom, nem sempre Ela conseguia fazer isso tudo em tão curto espaço de tempo. Quando o cansaço batia, deixava alguma atividade para o dia seguinte. Depois do banho – havia dias em que o pai gritava porque achava o banho demorado demais – ajudava sua mãe com os curativos, terminava de vesti-lo, levava seu pai até a mesa para tomar o café e dava outros remédios. Todos os dias. De segunda a segunda. Sem ajuda de ninguém. Só Ela e sua mãe.

À tarde ia para o computador trabalhar. Home office desde o início da quarentena. E você pensa que Ela tinha descanso? Volta e meia ouvia: “Garota, Garota…” Era seu pai chamando. E Ela precisava parar o seu trabalho para ver o que ele queria. E isso acontecia praticamente todos os dias. Enquanto sua mãe descansava após o almoço, Ela ia até o seu pai para saber “onde era o incêndio” e o que podia fazer para “apagá-lo”. Se ele estava calmo e o trabalho permitia uma pausa, Ela aproveitava para lavar a louça do almoço; sua mãe precisava descansar. Mais no finzinho da tarde, era hora do lanche. Quando chegava às 17h e o lanche não vinha, começavam as reclamações pela demora. Impaciência pura. Nesse horário, Ela ainda estava trabalhando e tinha que parar para dar atenção a ele, fazer o lanche, dar o remédio, levá-lo para a cama e deixá-lo lá até a hora do jantar.

Ah, a hora do jantar! Mais estresse. Meia hora antes dele comer, Ela o tirava da cama e o levava até a mesa. Era a hora dos remédios. Meia hora depois, vinha o jantar. Mas, nem sempre ele aguardava com paciência este intervalo. Quando começava a dar “defeito”, Ela adiantava o jantar. Depois mais remédios, fazer com que ele lavasse os dentes, levá-lo para fazer xixi e colocá-lo na cama. E mais curativos. Em sete meses, o cenário era praticamente o mesmo. Todos os dias.

Na cama, quando Ela e sua mãe demoravam nos curativos, o pai começava a gritar como uma criança mimada. Reclamações e berros. Primeiramente, com a voz ainda calma e tranquila, Ela pedia para o pai esperar. E dizia: “está acabando”. Mas, no auge de sua impaciência, ele não “obedecia” e berrava ainda mais. O pai era de uma impaciência absurda e insuportável. Ela aguentava o quanto podia. Às vezes deixava que o seu pai berrasse o quanto quisesse. Não dizia uma palavra. Noutros dias não aguentava e quando chegava ao seu limite, berrava mais alto e mandava-o parar, calar a boca, ficar quieto. E não é que ele se calava? Parecia que gostava que berrassem com ele. Ela achava esse comportamento surreal. Mas, como funcionava, usava desse artifício para fazer com que seu pai se aquietasse. E isso a deixava ainda mais cansada e exausta. O coração acelerava, a garganta doía… Ela não se sentia nada bem, não gostava de berrar com ele, mas tinha horas em que somente um berro dava resultado. Ela sempre dizia para ele: “quer reclamar, reclama, mas não precisa berrar”. Os berros é que a deixavam desestruturada emocionalmente.

A dedicação d´Ela e de sua mãe era praticamente 24h, por isso o cansaço extremo. Mas, apesar de todo o cansaço, de toda a dedicação ao seu pai o que Ela e sua mãe ouviam eram reclamações e cobranças. E xingamentos: “vaca, sua puta, sua porca, vai à merda!” Ele xingava a sua mãe e também a Ela. Quem é que consegue ouvir isso quase todos os dias e manter a calma, o bom humor e a paciência? Durante sete meses em quarentena…

Como Ela assumiu a responsabilidade com os cuidados com seu pai porque sua mãe já tinha idade, quando ele queria algo só chamava por Ela. “Garota!”, “Ô garota!”, “Garota, vem cá”!, dizia ele. Às vezes chamava pelo nome d´Ela. E por causa desse chamamento a toda hora, Ela dizia que sentia como se seu pai sugasse a sua energia. Às vezes, Ela só queria ficar em silêncio, assistir as notícias, fazer um pouco de exercício, mas… “Garota!”, “Ô garota!”, “Garota, vem cá”!

O pai d´Ela tinha uma obsessão que Ela achava insuportável: calças. Todos os dias, de segunda a segunda, e mais de uma vez ao dia falava em calças. Levantava e ia para o banho, falava de calças, ia para cama para ser cuidado, já queria as calças, enquanto lhe faziam os curativos pedia pela calça. Era uma obsessão. E ouvir a palavra calças praticamente o tempo todo mexia com o psicológico d´Ela. Aliás, Ela passou a ter horror de duas palavras: paciência, é o que todos diziam que Ela tinha que ter, e calças. Outra obsessão era a barba. A cada dois dias Ela tinha que fazer a barba, mesmo que só tivessem alguns “fiapos” imperceptíveis. Mas, como isso incomodava o seu pai lá tinha Ela que fazer a barba. Mas, fazer a barba era muito menos estressante do que ouvir falar em calças. Pelo menos quando Ela terminava de fazer a barba seu pai ficava feliz, realmente feliz. Um dos poucos momentos em que ele reconhecia os cuidados de sua filha.

E assim já se passaram sete meses. Vivendo um dia de cada vez. Com altos e baixos. Dias de cansaço e exaustão. Com o passar do tempo reclusa em casa, aquele bom-humor deixou de existir, o otimismo ia embora dia a dia e a leveza com que tentava levar a vida ia se esvaindo conforme o avanço da quarentena. Não estava sendo fácil. Aliás, ela sabia que não seria fácil, mas não pensou que fosse ser tão penoso e doloroso. Sim, porque dói ver seu pai sendo consumido pela doença. Dói se sentir impotente por não poder ajudar além do que está ao seu alcance e por não poder mudar aquela situação. Então Ela segue em frente, sem muitos planejamentos.

Se sua vida era mesmo como a música “Cotidiano” de Chico Buarque, todos os dias ao acordar ela também fazia tudo sempre igual: orava e pedia forças, coragem, paciência e resignação para enfrentar mais um dia. Afinal, Ela ainda tinha uma longa jornada, e sabia que precisava ser forte para encarar os desafios que estavam por vir. Pois não havia dúvidas que seu pai com Alzheimer ainda precisava muito d´Ela.

Post Extra

Crônica: Márcia Carmo dos Santos
Fotografia: Magali Maciel Rios

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