Movimento de pinça

A voz pequena e doce da neta chegava como se estivesse bem longe, quando – na verdade, ela estava em seu colo dizendo coisas que pareciam não fazer sentido algum. Faziam, isso sim, papel de canção de ninar. Retirou os óculos e fechou os olhos. “Vai dormir, vovô? Ou vai só descansar os olhos?” Sorriu ao ver a alegria da neta que, com o celular na mão, passava de uma foto a outra. Embarcou em um sonho onde sua filha não estava desaparecida. Estava bem e sorria. Só compreendeu que era apenas um sonho quando a voz da neta o despertou completamente: “A mamãe fica muito bonita com esse vestido. Mas só dá para ver se fizer a pinça com os dedos.”. A palavra pinça fez com que acordasse abruptamente e corresse a colocar novamente os óculos. “Ai, vovô. Quase me derruba!” “O que você disse?” A filha de sua filha mostrou a foto de uma praia. Ele achou que estivesse confuso por causa do susto do despertar, porém a neta repetiu que a mãe ficava linda naquele vestido. Antes de desaparecer, a filha lhe entregara a neta dizendo que mandaria um recado camuflado. Ele perguntou como saberia se ela estava bem. A filha respondeu, enigmaticamente, com a palavra pinça. E sumiu. Agora a neta fazia, em seu colo, o movimento com os dedos indicador e polegar. “Faz, vovô. Assim, ó!” E o avô fez. E como em um passe de mágica, a filha surgiu, – reconheceu o vestido, o cabelo, o jeito de parar com as pernas, naquela praia imensa de areias brancas. Ao desfazer o movimento, a filha sumia de novo. Mas, cumprira a promessa. Estava bem e tinha avisado. E, agora, ele tinha que seguir com a sua. Ainda bem que os óculos lhe ocultavam as lágrimas quando conseguiu desembargar a voz para dizer à neta o que tinha de dizer.

Rodada 98

Fotografia: Patrícia Cunegundes
Conto: Eliane França

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