Depois de longos meses, ganhava a rua. Absolutamente tudo lhe parecia inédito. Cada marquise e meio-fio, os letreiros e as cores, até mesmo as paredes cinzentas e seus rebocos descascados exalavam certa sedução. Talvez fosse, claro, apenas o olhar renovado para as coisas de sempre, talvez o enlevo da liberdade reconquistada. Não importa. Sentia-se virgem daqueles adornos que formam a paisagem e que, com o tempo, se adensam em um bloco uno e sólido, juntando as minúcias que escapam aos nossos olhos apressados de rotina.
Aí pelas três da tarde deu-se o prenúncio: era uma luz vasta, em um espaço imenso. Aproximou-se devagar, passos cuidadosos. Através do vidro da vitrine enxergou uma lâmpada – curiosamente, não havia pé direito onde prendê-la. Dentro da lâmpada, uma flor. Delas, lâmpada e flor, saltavam raios vermelhos, amarelos, alaranjados. Por toda parte, uma essência floral embaralhava os sentidos. Entendia pouco, ou nada, do que acontecia. Sentia um êxtase sereno, uma paz inebriada. Ali mesmo se deixou ficar… Era tempo de gozar os encantamentos possíveis.
Rodada 97
Fotografia: Marcia Magda Marcos
Conto: Robson Aguiar