Deitada na penumbra. Acabara de acordar ou ainda dormia? Com o dedo indicador sequei uma lágrima. Tentei fechar os olhos novamente. O esforço me pareceu demasiado e deixei aquele pequeno mar se acumular para depois escorrer pelas laterais do rosto. “Você não sentiu?” Eu tinha sentido, sim. Mas ignorei. Cheguei a olhar para a água da privada e sem entender o que ali via, e havia, dei a descarga, coloquei um absorvente, e fui trabalhar. Como se um dia ordinário fosse. “Você esteve grávida.” Que construção de frase mais estranha! Então, eu estava grávida? Estive? Estivera? Ao fazer o primeiro xixi do dia, sentira um leve incômodo na barriga, porém bem distante das cólicas horríveis que sempre me atormentaram a vida inteira. “Mas você não sentiu que eliminava nada?” – o médico insistiu nessa e em outras questões. Não senti. Não quis sentir. Achei que estava menstruada. Nunca quis um bebê dentro de mim. Mas, agora, que ele se foi… ou nem foi? Nem chegou a ser uma vida? “Tinha menos de três meses. Muitas mulheres engravidam, perdem e nem ficam sabendo de nenhum dos dois fatos.” Eu seria uma dessas? Se não tivesse uma consulta marcada? Se ele não tivesse feito exames e tantas, tantas perguntas? Perdi algo que nunca quis? Por que essa água salgada nos olhos como no sonho que acabo de ter? Foi sonho? Queria voltar a dormir e quem sabe sonhar algo diferente. No entanto, a água vaza. Como vazou algo de mim que não pude definir o que era. Aquele mar revolto. Do sonho. Sem saber se o que vivi foi real ou não. Quem existia na sombra: o mar, o médico, o pequeno ser? Belisco meu braço em atitude ridícula. Só sei de uma coisa… Aquele mar todo? Eu o chorava agora.
Rodada 97
Vídeo: Cíntia Ferreira
Conto: Eliane França