O suor em gotas percorre a tez macia do rosto outrora apaixonado. Alquebrada, por ter seu amor partido, sonhou com o dia do reencontro por longos anos.
Como esquecer a voz dele ao pé do ouvido cerzindo o bordado da adolescência.
As viagens na garupa de uma moto nas areias finas e virgens, o abraço rechonchudo no momento preciso da falta e o corpo e o mar e o barco e todas as coisas boas da vida quando se vive sem o interregno da pressa.
Ela prosseguiu em tentativas: O segundo, o terceiro, o quarto, perdeu a conta- todos eram inadequados comparados a ele, o primeiro.
O primeiro que lhe permitiu descobrir o mundo com lentes coloridas a ponto de roubar-lhe a melhor gargalhada de que se lembra, mas a deixou porque não queria ser o primeiro a penetrá-la. Foi embora e lhe deixou flores, usou um guardanapo como cartão e à moda antiga disse o quanto “a gatinha era de boa família”. De quebra gastou dinheiro com mais flores e as enviou para a mãe por ter educado a filha direito.
Passou a não gostar mais de flores quando conheceu o inumerável, o humano, o palpável. O desejo único de querer estar junto, enfrentando espinhos e curtindo o odor das rosas. Simples, sem conceitos. Quanto à garupa da moto, ela guarda uma marca, e de tempos em tempos olha e sorri como quem diz : “essa é a cicatriz da época em que não sabia quase nada do mundo”.
Rodada 97
Fotografia: Graça Souza
Conto: Adriana Vieira Lomar