I
Onde ainda somos vivos?
Na nossa dor e na dor dos outros
que nos fazem mais compassivos
No julgo da grande cólera
que deixa a todos mais agressivos
Em nossos modos sem decoro
– são covardes e coercivos
Na vida da grande ópera,
com enredo invertido e corrigido
Na terra ruim ou boa
onde há esforço e cultivo
Em nossos imperfeitos espíritos,
prontos para ir – combativos
No pesado fardo dos perdidos
– medrosos, zangados, lascivos
No muito obrigado e no sorriso,
despertados por um simples curativo
II
Talvez porque antes
éramos tantos
e éramos vários
não acreditássemos
que um dia
seríamos derrotados
Vieram máquinas
Máquinas que nos machucaram,
nos derrubaram, nos queimaram
Máquinas que fizeram máquinas
Quantos de nós aqui caídos!
Nossos corpos agora todos iguais
Pelo último filete de água embebidos,
sem as costumeiras preces espirituais
Só o plástico e o vidro
Só a transparência da mentira
Aqui não há vida
Aqui não somos vivos
III
Onde ainda há vida?
Nas tristezas e nas alegrias,
estejam sanadas ou feridas
Na culpa, que vem e cria
o caminho para ser absolvida
Na ira sem nenhuma valia
– tirana e homicida
Nos pesados livros de histórias,
com páginas frágeis e amarelecidas
No prazer das grandes vitórias,
o júbilo das almas destemidas
Na ilusão das grandes glórias,
a decadência das façanhas olvidas
Nas estações de trem
– em suas chegadas e partidas
Na devoção que todos têm
pela vida recém-nascida
Nas pegadas de um bicho,
um bicho livre que corre
Que corre por ser vivo,
e não porque morre
Rodada 97
Imagem: Pilar Domingo
Poema: Arthur Tavares Corrêa Dias