Um amor e um bolero

– Pegou tudo, mãe? Vamos?

– Acho que não quero mais ir, minha filha.

– Mãe, pelo amor de Deus, a gente precisa seguir em frente. Não acha que seis anos de luto é um pouco demais?

– O luto é meu e eu que decido quando ele acaba. Era meu marido, eu que sei a falta que ele me faz. Agora você virou fiscal de luto, Ana?

– Bom, ele era seu marido, mas era meu pai. Mas não vou brigar com você por causa disso. O luto é seu, o sofrimento é seu. Desculpa. Mas temos que esvaziar aquela casa, mãe. Entra no carro e vamos logo, pra não pegar engarrafamento e não chegar muito tarde.

Enquanto Ana tirava as malas do carro, Maria acendeu os refletores do quintal. A sensação foi de ter entrado numa máquina do tempo. Fechou os olhos e de repente tudo voltou: a algazarra dos netos correndo na varanda, os filhos discutindo sobre política na mesa, os cachorros latindo, querendo alguma sobra do jantar. Enquanto isso, José Antônio saía de fininho para colocar uma música.

– Me concede uma dança?

E lá estavam os dois, mais uma vez, brilhando naquele cantinho só deles, ao som de “besame, besame mucho, como si fuera esta noche la última vez”.

Rodada 97

Fotografia: Lúcia Dias
Conto: Patrícia Cunegundes

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