A bicicleta

Como todo sábado – o domingo não – sigo, ansiosa, em minha bicicleta até o lugar de sempre; me sento no gramado e, impaciente, olho sem atenção a paisagem já conhecida: o mar, as montanhas ao longe. Meu coração bate forte, rápido, apesar de tantas vezes na mesma espera no mesmo lugar – enquanto os ponteiros do relógio, se relógio eu usasse, andam silenciosos e lentos. Silencioso e lento, ele chega em sua bicicleta; senta do meu lado, como se contemplasse o mar e apenas aguardasse meu convite, como todo o sábado, para um café em meu pequeno apartamento, ali perto, de onde ele sairá em no máximo duas horas, cansado e suado como se tivessem sido duas horas de pedaladas.

Mas hoje, não. Hoje vai ser diferente. Hoje eu falo. Começo dizendo que cada ano tem cinquenta e dois sábados, e que com hoje já são quase quatrocentos sábados:

“Sabe o que é isso? Só tenho de meu estas horas da manhã de sábado, roubadas de tua família. No início pelo menos você mentia, que ia se separar, que aguardava apenas a formatura da tua filha. No início eu ainda era jovem, bonita – e esperava – o tempo contava ao meu favor. Hoje você nem tenta mais mentir, a filha já se formou, já casou, você é avô, me mostrou até a foto do pequeno inocente sorrindo achando que a vida é bela – e teus domingos e os outros dias todos continuam sendo dela – e meu tempo se esvai e não volta mais.”

Continuo. Ele calado. “Não é o futuro que eu quero para mim, ficar vigiando o telefone que não toca, viver na expectativa de que não chova no sábado, envelhecer sem ter nada de meu”. Me levanto, ele em silêncio; dou uma volta em torno de mim mesma, examinando como se visse pela primeira vez a paisagem, o céu sem nenhuma nuvem, o mar sem ondas, as montanhas; como se eu quisesse guardar em minha lembrança uma fotografia, como alguém que vira uma página e se depara com um livro em branco.

Pego minha bicicleta, sigo para casa sem olhar para trás.

Na portaria do meu prédio, o zelador talvez estranhe ao me ver chegar sozinha, diferente dos outros sábados; mas é discreto, finge nada ver, apenas abre um sorriso quando eu digo, “seu Carlos, não sei se o senhor quer esta bicicleta para sua filha, está quase novinha”. Agradece, pega a bicicleta, tira uma flanela e começa a limpar alguma invisível mancha de graxa no aro, nas rodas. Eu ia dizer qualquer coisa sobre as pedaladas fazerem mal para meu joelho ou então estar farta de andar de bicicleta, nunca mais!, mas acho melhor me calar, assim ninguém, nem mesmo o zelador, vai poder me cobrar nada se daqui a alguns sábados eu apareço no prédio com uma bicicleta nova.

Rodada 97

Fotografia: Walter Vinagre
Conto: Jozias Benedicto

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