O chapéu panamá está distante do meu raio de visão, mas o reconheço: é o mesmo que ele usava naquela noite fulgida. O vento assobiava, quebrando a mesmice da vila. De um lado, as mulheres afoitas por um aconchego, do outro, homens cansados da labuta diária. Mas a sanfona arrepiava os sentidos e me chamava para a festa.
Ele, o dono do chapéu, olhou para mim de rabicho. O olhar mais longo e azucrinante. Esqueci que estava acompanhada, perdi a noção do tempo.
Deixei que seu olhar atravessasse os limites daquele quintal e me penetrasse. Ali na frente de todos, do meu noivo e do par dele, unimos nossos lábios num beijo curto não por querência, mas por destino.
Escutamos a voz da razão:
– Desgrudem. Os anjos não permitem tal adultério. Loucos!
Pecamos no afã do prazer. O pecado nos separou. Fui para um lado, ele para o outro. Não consegui não olhar para trás, mesmo assim, me fiz de rogada e aumentei a estatística das mulheres frustradas fadadas a escrever diários em conventos.
Fingi ser o que não sou e acreditei que estava servindo ao senhor. Uma balela. Quantos vincos se formaram e a vida decorreu sem aquela sensação vivida naquele baile. Jamais esquecerei o ritmo e o tom daquele som sanfonado.Por isso estou aqui nesse vagão, cheia de rugas e o cheiro do seu perfume ainda me acompanha. O chapéu riscado com uma faixa preta embaça minhas vistas. O dono do chapéu está de costas, exibe uma corcunda e parece viver em estado de caducidade.
E daí minha agonia, quando desço na estação. As portas se abrem e do outro lado reconheço o olhar faiscante, o mesmo olhar. Bato no vidro com o trem em movimento. Ele não me reconhece. Tiro o véu.
Ele bate no vidro. Permaneço estática com o coração sedento. Aguardo o retorno do trem, enquanto isso escrevo o que me resta escrever nessa tarde úmida. O coração zabumba alegrias.
Rodada 97 Invertida
Conto: Adriana Vieira Lomar
Fotografia: Rachel Jaccoud Amaro