Canal 40

Siqueira não era de pedir favor. Por isso, quando escutei a conversa ao telefone sabia que não era coisa boa:

— Mas te pago em quinze dias.
— Mas é muito dinheiro, velho.
— Eu sei, por isso estou pedindo sua ajuda.
— Mas se você não tem hoje, como vai arranjar em quinze dias?
— Confia em mim.

Pedi desculpas, disse que não era questão de confiança e me despedi forçando o desligamento sem ouvir resposta amigável do outro lado. Três dias depois me ligou a filha do Siqueira informando que ele estava desaparecido e perguntando se eu teria informações. Contei sobre o telefonema e ela disse que não fui o único.

Hoje de manhã, passados sete meses do sumiço do Siqueira, liguei a televisão e comecei a acompanhar a cobertura insossa do vernissage de um artista desconhecido. A entrevistadora destacava a sobreposição contemporânea de cores e a releitura de obras clássicas através de técnicas mistas. E perguntou ao pintor qual havia sido a inspiração em determinada obra que aparecia desfocada ao fundo. Enquanto o homem respondia eu percebi que, por trás de um bigode exótico e abaixo de um chapéu coco estava ele, o Siqueira.

— Mariana, liga a televisão. Vi seu pai no canal quarenta.

O homem nunca tinha sido das artes. Trabalhava há vinte e dois anos na mesma empresa como contador, auxiliar de impostos ou coisa que o valha, não sei bem. A gente se encontrava no Condado do Galeto, jogava dominó, falava de uma ou outra pequena que passava pela rua de vestidinho solto e o Siqueira nunca tinha dado a menor pinta de se interessar minimamente por nada que fosse além da beleza de um concurso de canto de trinca-ferros.

— O vanguardismo do começo do século XX plantou sementes profundas em nossa sociedade e nossa arte. Alguns – a maior parte e os mais popularizados deles – floresceram nos anos imediatos ao plantio, mas outros – árvores de metabolismo lento – esperaram até agora. É assim que leio a minha obra. Este aqui, por exemplo, tem grande influência de meu estudo sobre a obra de Kandinsky.
Eu ouvia Siqueira falando e me perguntava se eu não estava tendo uma alucinação.

— Mariana, você assistiu? É seu pai mesmo?
— …
— Mariana?

Insisti na ligação, mas o telefone da filha parecia ter sido desligado. Resolvi sondar os amigos do Galeto. João Francisco jamais ligara a televisão naquele canal. Fabricio tinha saído para pescar e estava longe de casa. Edmundo riu tanto de mim imaginando o Siqueira como pintor de quadros que nem terminou de ouvir a história.

Convencido de que havia sido uma semelhança forçada pela minha preocupação com o amigo desaparecido, desisti do caso e fui reabastecer meu estoque de Derby vermelho. Cheguei no Condado do Galeto e o Seu Pedrosa começou a me olhar esquisito. Como se estranhasse minha presença ali. Olhão arregalado, gestos estranhos.

— Que foi, Seu Pedrosa?
— Nada, nada… – respondeu forçando um sorriso.
— Me vê dois pacotes de Derby vermelho.

Ele foi no estoque e voltou com o olhar congelado ao meu. Quando me entregou os volumes tinha uma coisinha escrita em azul no pacote de cima “não confie em nenhum deles”. Sentindo que era uma mensagem secreta fiz de conta que não tinha lido, paguei normalmente e fui embora sem olhar para trás ou levantar suspeitas. Algo de errado estava acontecendo e o Seu Pedrosa queria me avisar.

O pior da mensagem era que, até segunda ordem, não poderia dividir o assunto com ninguém. “Não confie em nenhum deles”. O Siqueira desaparecido, a filha não falava mais comigo e os amigos não eram confiáveis.

Era perto do meio dia, requentei o feijão e uma quentinha de rabada com batatas que estava na geladeira, tomei com uma cachacinha e me bateu um sono danado depois. Dormi no sofá. Quando acordei, olhei pela janela e não acreditei no que via. Já era noite. Escuro profundo, noite tão densa que nenhuma luz atravessava minha janela. Mas, havia algo estranho naquele breu, não vinha nem luz dos postes. Peguei o celular para ver as horas e ele marcava 17h12. Como assim? Como poderia estar tudo escuro se o sol nem deveria ter se posto ainda? No registro de chamadas não atendidas, várias ligações do mesmo número, que minha agenda não conhecia. Fiquei tomado de pavor e resolvi fazer contato com alguém: telefone sem linha, sem rede, isolado. Usei a bateria restante para acender uma lanterna e caçar os interruptores. Mais uma vez, novo susto: a energia elétrica tinha sido cortada, o que me trouxe um pavor real de algo muito grave. Não vou ficar aqui. Vou sair. Ao chegar na porta de casa entendi o porquê da escuridão. Todas as janelas e saídas estavam fechadas com madeira. Iluminei o caminho até a caixa de ferramentas e peguei um martelo. Derrubei os tapumes da porta para poder sair. Depois de soltar um pedaço com tamanho suficiente para minha passagem descobri que, cobrindo toda a madeira, havia uma lona preta: eu havia sido trancafiado e embalado por algum motivo totalmente desconhecido que me deixava desesperado de terror. Quem seria capaz disto?

Mas o pior veio quando venci a escuridão da lona. O pôr do sol daquele lindo domingo atingiu minhas pupilas desacostumadas e num raio de muitos e muitos quilômetros não havia mais nada. Casas, postes, fios, telhados, prédios, escolas, asfalto: todas as construções tinham sido arrancadas dos seus lugares, sem deixar entulho para trás. Apenas as fundações e os ferros das colunas provavam que um dia ali estiveram. No meio daquele deserto imenso e plano, minha casa forrada de preto e eu tentando entender que caralho o Siqueira havia aprontado.

Rodada 96 Invertida

Conto: Pedro Silva
Colagem: Patrícia Cunegundes

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