A pedra e o rio

Disse Heráclito que nunca entramos duas vezes no mesmo rio… pra mim isso não faz sentido, pois desde que entrei no rio não consegui mais sair, então nunca saberei como é entrar no rio uma segunda vez… o que sei é que quando entrei era apenas uma pedra. Fui empurrada para o rio pelas patas apressadas do cavalo negro que cavalgava a beira do rio, acho que o cavaleiro que ia em cima do cavalo tentava resgatar uma moça que se afogava mais a frente, suspeito isso porque debaixo d’água já no centro do rio via as pernas da moça se debatendo e seu vestido pesado puxando a para o fundo do rio.

Depois desse dia em que fui parar no fundo do rio, muitas coisas aconteceram e a vida passou a ter outra perspectiva, afinal ser uma pedra na terra é bem diferente de ser uma pedra na água. Agora eu já não via o céu pelo ar e sim através da água, tudo se mexia e em dias em que a correnteza era leve eu conseguia identificar a forma das nuvens e observar as folhas das árvores.

Algumas vezes eu ficava preso em algum ponto por muuuito tempo e se acomulava em mim algum tipo de vegetação, o que fazia que eu fosse visitada por um maior número de peixinhos, camarões do rio e outros seres..nem sei descrever quanto tempo fiquei no fundo do rio sendo acariciado pela água translúcida ou saculejado pela revolta barrenta. Percebi que com o passar do tempo eu fui diminuindo e também foi crescendo o rio, por vezes ele encolhia e virava um filetinho de água e assim passei de pedra pra grão de areia. No grão de areia virei parte de algo muito maior, éramos tantos que chega ficava irritada, nunca estava sozinha, sempre rodeada de tantos grãos que sequer ouvia meus pensamentos. Um dia estava eu espremida no meio daquele monte de grãos de areia e veio rolando para cima de nós uma enorme pedra, a pedra veio com tanta força que esmagou para a eternidade um monte de grãos e por sorte me fez sair voando solta na água. Nesse instante tive um pouco de paz e pude sentir a leveza de minha existência, voando na água leve, só. Um pequeno grão de areia. Acho que esse foi meu último instante grão, desde então sinto que já sou água que flui por todo o rio, acariciando pedras, fazendo cócegas na areia e passeando com os peixes. Sinto que ainda enfrentarei novas transformações e que existe algo muito amplo a minha frente, por isso sigo, sempre em frente. Quem sabe o que me espera? Quem sabe eu entre de novo no mesmo rio?

Rodada 96 Invertida

Conto: Maria Matina
Fotografia: Luiz Felipe Sandins Mendonça

Deixe um comentário