Como monstro de biscoito

A vida era simples. Eu pedia um dinheirinho para a minha avó, atravessava um sinal e comprava um saco de biscoitos em formato de monstro. Quando voltava, agradecia com um beijo na bochecha. Depois, ia deitar de barriga para baixo no cômodo que eu e minha irmã tínhamos apelidado de biblioteca. Balançava a porta com o pé, munida com um arsenal de livros, várias revistinhas e ficava lá, comendo biscoitos enquanto lia. Só não sei precisar quantos anos eu tinha. Essa memória me bateu forte, abafando qualquer outra. Mais nítida até do que a imagem que meus olhos viam agora. Como explicar isso, meu Deus?! Tiro os óculos, desaprumo a miopia. E esse prédio embaçado de agora é onde vivi e fui mais feliz do que nunca? Não me recordava desse lugar assim como um lugar de tamanha felicidade. Simplesmente, não tinha me dado conta. Será que meus pés me arrastaram até aqui? De jeito algum. Vim, conscientemente, para me despedir. Preferi vir hoje. Nas esquinas não tão próximas, o perímetro seguro foi demarcado por fitas de plástico pretas e amarelas. Distância que só será exigida amanhã. As pessoas estão se programando para ver a demolição. Como se fosse um evento. Eu preferi vir hoje. Mas não podia imaginar que essa lembrança específica me atacaria. Como um monstro de biscoito. Chega a ser engraçado não se ter consciência de quanta felicidade se pode ter tido. Talvez não engraçado mas, no mínimo, curioso esse despertar em momento tão delicado. Pisco e tudo continua embaçado. Limpo os óculos e penso nos monstros de agora que se fazem presentes em sombras imaginárias ou não. Dou uma derradeira olhada. Ajeito a máscara sobre o nariz, calculo o nível de oxigênio necessário para chegar em casa e vou repetindo como um mantra: a vida era simples, então. Tentando me esquecer dos monstros nada doces de agora. Volto segura. Como se essa felicidade antiga me envolvesse feito manto de proteção.

Rodada 95

Fotografia: Walter Vinagre
Conto: Eliane França

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