— Deve dar uns três caminhões de terra…
— Você tá doida? Aqui vai pra mais de cinquenta, errou feio!
— Que cinquenta que nada! Exagerado. Estourando uns cinco…
— Oooo mulher teimosa, vai por mim, de cinquenta pra mais.
— Teimoso é você! Que caminhão pequeno é esse seu?
— Caminhão, caminhão, ué. Caminhão com caçamba, normal.
— Vou ligar pro Zé Antonio depois e perguntar.
— Perguntar o que? A gente não tá aqui vendo? É só olhar e ver.
— Mas você é exagerado. Lembra do vinho do casamento?
— Meu Deus, Dulce! 47 anos e você ainda fala do vinho do casamento?
— Mas você lembra?
— 47 anos, Dulce!
— Lembra?
—Ahhh, não dá pra conversar com você, não dá.
— Sobrou pra quatro anos. Quatro anos tomando o mesmo vinho.
— E não era bom? Eu nem lembro direito disso. Desenterra cada coisa.
— Pois é bom você lembrar. Depois que contratar o homem do caminhão vai fazer muita diferença. E caminhão é bem mais caro do que vinho.
— Dulce, como você pode achar que aqui só tem três caminhões de terra?
— Eu disse que estourando uns cinco.
— Três, cinco. Como pode imaginar que tem menos do que trinta?
— Quer ligar pro Zé Antonio?
— Que Zé Antonio que nada! Deixa o Zé Antonio trabalhar em paz. Ele sempre concorda com tudo que você diz. Ele tá longe, a gente tá aqui de frente pro terreno.
— E então, como fica?
— Como fica o que?
— Vai ligar pro homem do caminhão pra vir tirar a terra?
— Calma, tem mais coisa antes.
— O pedreiro não pode ajudar nisso?
— E pedreiro sabe alguma coisa?
— Ué! Se não sabe, como você contratou?
— Ahhhh, Dulce.
— Dulce o que? Se você não confia no pedreiro, por que chamou ele?
— Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
— Que papo de bêbado.
— O homem é bom para assentar parede, não pra fazer cálculo de terraplanagem.
— Olha aí: parece que me ouviu falando dele. Este sente… oi, Zé Antonio, tudo bem? Tô aqui pelejando com o turrão do seu pai. Ele acha que vai precisar tirar cinquenta caminhões de terra, eu acho que não sai nem cinco… Eu sei, Zé Antonio, mas você não conhece seu pai? Alguém muda a cabeça dele?… tá bom, filho, depois a gente conversa…
— O que ele disse?
— Que você tá maluco.
— Ah vá, ah vá…
— Ahhhh… você tomou seu o remédio hoje?
— Por que tá falando isso?
— Porque não te vi tomando.
— E por que lembrou disso agora?
— Sei lá, só lembrei.
— Você acha que eu fiquei louco?
— Por que diz isso?
— Porque tá falando de remédio.
— Mas o remédio é pra pressão, homem! Por que eu falaria do seu remédio pra pressão se achasse que você tá ficando louco?
— Sei, sei…
— Você é muito desconfiado.
— Vem cá, vamos voltar logo? Tá frio demais aqui e a gente não vai decidir nada congelando.
— Tá bem, foi você quem insistiu pra sair de casa na segunda cedo.
— Porque eu queria resolver isso logo.
— E por que não resolve?
— Resolver como? Se você não me ajuda?
— Meu Deus! Eu acordo cedo, venho aqui, dou minha opinião e você diz que eu não ajudo?
— Tá bom, Dulce, tá bom…
— Tá bom nada! Você não quer me ouvir, né?
— Não é isso. Só deixa isso pra lá, tá bom?
— Tá.
— Sabe que agora que você falou… eu não lembro se tomei o remédio…
— Só não esquece a cabeça porque tá grudada.
— Vamos embora que tá frio. Aproveito e confiro o remédio. Ah, e tá decidido, vou fechar 50 caminhões.
— Se você tirar 50 caminhões de terra daqui a gente vai morar numa casa subterrânea. Numa caverna. Por que não pede ajuda para os meninos que vão construir?
— Ahhh, e eles entendem alguma coisa?
— Tá bom… depois não reclama que tem morcego.
— Onde?
— Na sua caverna.
— Arf…
— Deixa eu chamar o Zé Antonio?
— Não! Não! Ene, a, o, til, não!̶
— Então tá, você chama e se vira com a terra e com o povo do caminhão depois. Que nem… ahhh, deixa.
— Fala. Termina.
— Deixa pra lá.
— Começou, termina.
— Vamo embora, tá frio mesmo.
— Fala o que você ia falar, Dulce. Que nem o que?
— Que nem com o vinho.
Rodada 95
Fotografia: Marcia Vera (artista convidada)
Conto: Pedro Silva