Decretaram a “quarentena”. Eu pude ver filmes até a madrugada, acordar mais
tarde e só me levantar quando queria. Ou seria “isolamento” o que foi decretado? Abri
uma cerveja na hora do almoço, num dia de semana – e não era férias nem feriado: Oh,
que beleza!
Logo de cara esses nomes começaram a se confundir: isolamento, quarentena…
E os decretos também. O que podia e o que não podia funcionar. O que era e o que não
era essencial. Nós seríamos todos essenciais?
Quem decretava os decretos foi outra confusão. Governadores e prefeitos
corriam em atropelo; atropelavam-se mais a si mesmos do que uns aos outros. E se de
um lado havia uma corrida para o pódio da pró-atividade, do outro o chefe da nação
agia em sentido inverso e desdenhosamente.
Eu já tinha perdido a minha corrida de segunda-feira, meu futebol de terça-feira,
a academia na quarta-feira, meu outro futebol na quinta-feira e o happy hour da sexta-feira. Na televisão não havia um campeonato de coisa alguma acontecendo. Tudo estava
parado no Brasil, Estados Unidos, Europa e Ásia. Futebol, basquete, tênis; tudo
interrompido em todos os lugares. Quando começaram a falar em distanciamento (mais
umas palavrinhas aí) horizontal e vertical, em ferrar mais ou ferrar menos a economia
com uma ação mais geral ou mais cirúrgica, decidi que estava de saco cheio e que ia me
esforçar para uma coisa apenas: aproveitar o momento. Parei até de prestar atenção nas
notícias.
Baita egoísmo! É, eu sei que é. Mas foi o que eu fiz. Por sorte, minha despensa
estava cheia, e cheia de coisas que eu gosto. Então podiam bater palmas para os
profissionais da saúde, fazer panelaço contra o presidente, tocar desafinadamente seus
instrumentos nas varandas, espalhando o som em meio aos prédios e fazendo muito
mais ecos do que música propriamente dita; enfim, para mim estava tudo bem. Relaxei e
me isolei de verdade: portas trancadas.
Justamente quando experimentava esse alívio, esse prazer, por ter me afastado
daquela confusão das ruas vazias, percebi que não estava sozinho. As portas estavam
trancadas desde o primeiro dia do isolamento. Ninguém havia passado por elas, tinha
certeza. Mas os sons e os objetos que eu encontrava pela casa não deixavam dúvidas
sobre a presença de outras pessoas em meu apartamento. Como eu não havia percebido
isso antes? Como conseguiam se esconder de mim? Por que estavam ali?
Quando pensei em procurá-las, elas vieram até mim. A primeira dessas pessoas
aproximou-se rapidamente, sem demonstrar uma ponta de medo. Entrou na sala, vindo
do corredor que dava para os quartos. Ela era bem pequena, tinha cabelos e olhos
castanhos, pernas roliças e uma barriguinha redonda. Andava de forma engraçada, como
se estivesse desequilibrada o tempo todo; mas não caía. Falava em uma língua diferente
da nossa, porém bastante compreensível. Seu nome era Caio.
Atrás dele veio uma moçinha, com muitos traços de menina. Também pequena,
porém não tão pequena quanto Caio. A pele mais morena, os cabelos mais claros e os
olhos mais escuros, profundos. Encarou-me. Quase tive medo antes que seu rosto sério
se transformasse em um sorriso cheio de dentes; os olhos dela brilharam junto com o
sorriso. Chamava-se Laura.
Caio e Laura mostraram estar muito à vontade. Eram amistosos. Riam e
divertiam-se entre eles. Percebi que queriam chamar minha atenção. Nesse momento
ouvi outro som vindo do meu quarto, uma música. Alguém cantava. Era uma mulher
quase da minha altura, com cabelos negros e ondulados até os ombros. Estava sentada
em minha cama, dobrando roupas de vários tamanhos. Despreocupada cantava.
Martha… Sim, seu nome era Martha. Os outros quartos continuavam em silêncio…
Quando Martha percebeu que eu estava diante dela, seu semblante mudou. Não
parou de cantar nem de dobrar as roupas, mas tudo foi tocado por uma tensão que não
havia antes. Fiquei desconcertado, sentindo-me um intruso em minha própria casa, em
meu próprio quarto. Eu havia estragado aquele momento. Um momento simples,
prosaico, cotidiano; mas que ainda assim estava sendo um bom momento para Martha; e
eu havia estragado. Sem saber o que fazer e sem dizer nada voltei para a sala, onde Caio
e Laura continuavam a se divertir com suas brincadeiras.
Sentei na poltrona em um dos cantos da sala e fiquei observando os dois. Riam
sem parar em uma brincadeira, um jogo que parecia inventado por eles. Eu tentava
entender as regras. Martha veio do quarto e uniu-se aos dois na brincadeira. Ela
conhecia todos os truques daquele simples jeito de brincar, que de mim estava protegido
por uma indecifrada complexidade. Tomei coragem para me aproximar.
Caio e Laura adoraram me ver entre eles. Puxaram-me para a brincadeira e
começaram a jogar comigo como se eu já conhecesse tudo daquele mundo. Não pude
conter o riso. Eu me atrapalhava na brincadeira, porque, como disse, não conhecia e não
compreendia suas regras. Quanto mais eu me perdia, mais Caio e Laura riam em altas
gargalhadas. E quanto mais eles riam, mais eu ria também. A alegria deles me
contagiava rápido; mas nem pensei em fazer analogias com a pandemia que estávamos
vivendo, porque tudo aquilo era muito diferente da vida que havia parado lá fora.
Martha continuava na brincadeira, divertindo-se como antes. No entanto, era
impossível não perceber o espanto dela em me ver ali; novamente como se fosse eu o
intruso naquela casa. Ela conseguia esconder esse sentimento de Caio e de Laura, mas
não de mim. Achei melhor deixar assim, fingir que também não percebia sua estranheza
comigo.
Era manhã, tínhamos o dia todo pela frente e todos os demais dias e noites do
período de isolamento social, que poderia ser prorrogado; como de fato foi. Apresentei
ao Caio e à Laura algumas das brincadeiras de minha infância. Ensinei como jogar um
bambolê para frente de jeito que ele sozinho voltasse para as minhas mãos. Para eles
parecia mágica, foi um estardalhaço! Descobri que Laura adorava videogame e Caio era
viciado em Angry Birds. E a assim foram passando nossos dias. Quando sentíamos
fome, Martha já estava com uma refeição pronta. Ela nos conhecia a todos muito bem,
inclusive a mim. Como podia?
À noite, quando Caio e Laura sentiam sono Martha os acomodava em um dos
quartos. Sentindo-me como um anfitrião, ia ver se estavam bem. Pediam-me para contar
uma história. Eu não sabia contar nenhuma história que eles com certeza já não
conhecessem. Minha sorte foi haver vários livros pequenos naquele quarto. Pegava um
e lia para eles. Dormiam respirando profundamente, com as boquinhas escorrendo baba
e os olhos entreabertos. Com muito cuidado ajudava-os a fechar os olhos
completamente, como se eu fosse o Zé Pestana – personagem da minha infância.
Deixava as boquinhas abertas com suas babas, porque achava aquilo delicado.
Voltava para a sala e Martha estava sonolenta, esticada no sofá. Ela levantava,
dizia que estava com sono e ia para o meu quarto. Eu não sabia o que fazer. Ficava no
sofá abrindo cervejas e assistindo na TV reprises de qualquer merda que fosse. Ou
qualquer filme também merda que eu não tivesse, ou já tivesse, visto. Adormecia ali
mesmo.
Pela manhã, quando Martha chegava na sala, eu acordava num susto. Nesse
momento ela me encarava sem nenhuma surpresa. Isso foi o mais desconcertante de
todos aqueles dias. Caio e Laura vinham para a sala com as carinhas amassadas de
cama, fazendo bicos, bocejos e estalando os lábios, mostrando que o sono lentamente se
distanciava. A presença deles deixava o ambiente mais leve.
O tempo que eu ficava com os pequenos era incrível. Porém, comecei a prestar
mais atenção em Martha, e a sentir mais necessidade de estar com ela. Percebi que sua
presença me fazia muito bem. Passei a acompanhá-la na cozinha. Fazíamos as refeições
juntos e depois arrumávamos tudo também juntos. Eu fazia isso com prazer, sem
dificuldade – o que antes não me parecia ser possível. Algumas vezes me adiantava e
preparava algo sozinho, tentando agradar a todos. Dava de ver como Martha ficava
satisfeita nessas horas.
A cada dia encontrávamos ou inventávamos uma nova brincadeira. Usávamos
tudo para passar o tempo. Caio não respeitava as regras dos jogos de tabuleiro e sempre
estragava tudo no meio de cada partida. Ninguém se zangava. Achávamos graça: era o
Caio. Eu liguei minha velha, esquecida e empoeirada guitarra. O som dela foi outro
passe de mágica! Encontrei umas garrafas de vinho perdidas no fundo da despensa. Foi
uma alegria especial para mim e para Martha, pois nós dois adorávamos vinho e o
tempo começava a esfriar.
Gostávamos de tomar vinho à noite, depois que Caio e Laura já estavam
dormindo. Os dois pequenos sempre se cansavam antes de nós e dormiam mais cedo.
Eu e Martha ficávamos no sofá, tomando vinho e assistindo as notícias (eu havia feito
as pazes com os noticiários), ou algum filme, ou qualquer outra coisa que nos desse
vontade. Às vezes ouvíamos música e conversávamos. Conversávamos sobre tudo,
sobre muitas coisas que há muito tempo eu não conversava com ninguém. Enquanto
prolongava-se nosso isolamento com o restante do mundo, mais próximos ficávamos
uns dos outros.
Numa dessas noites, quando decidimos dormir, eu também fui para o quarto.
Estudei Martha atentamente naquele momento. Ela não estava indiferente, nem
contrariada. Estava feliz. Isso fez com que eu relaxasse um pouco. Mesmo assim deitei
na cama e não me aproximei dela: ela veio ao meu encontro. Colocou sua mão sobre
meu ombro, deixou sua perna em contato com a minha, olhou-me vivamente e me
lançou um sorriso que não poderia ser de timidez. Eu a beijei, nós nos beijamos e
naquela noite nos amamos. Acordei na manhã seguinte com uma sensação boa, mas
estranha; como se eu tivesse recuperado quase dez anos da minha vida.
Nas noites seguintes continuamos nos encontrando.
Eu estava cada vez mais apegado àquelas três pessoas. Como pude viver tanto
tempo sem elas? Ajudava Caio e Laura a colorirem seus desenhos; dividia com Martha
os afazeres domésticos e os cuidados com os pequenos; antes eles dependiam da
Martha, agora dependiam de mim também. Às vezes alguns momentos divertidos
davam lugar a certas tensões. Mas fazer as pazes era sempre muito especial e quase
fazia valer a pena ter brigado. Não havia perfeição em nós. Nada era perfeito: era uma
realidade bonita e alegre.
Em uma noite que pensávamos ser como todas as outras, tomávamos vinho e
assistíamos as últimas notícias. Ouvimos que o isolamento iria terminar em poucos dias.
Olhei com muita atenção para a porta do quarto onde dormiam Caio e Laura. Passei
meu braço por cima dos ombros de Martha e a apertei contra mim.
Não queria que fossem embora.
Rodada Extra Quarentena
Conto: Arthur Tavares Corrêa Dias
Fotografia inspirada no conto: Rachel Jaccoud Amaro