Mergulhar

É estranho.

Não sei se olho para dentro ou se olho para fora. Um ângulo reto voltado para o nada, ou de costas para o tudo.

Sentinelas casuais, os biguás darão o sinal quando eu mudar de lado.
Vê como nadam os biguás? Como mergulham? Para eles, as superfícies são indistintas. Um momento no ar, um momento entre, um momento submersos. Transitam pelo limiar. Aqui, velam a passagem, observam o lá e o cá.

Quando submersos, caçam.
Também irei à caça quando estiver do lado de lá, que imediatamente passará a ser o lado de cá. Verei imagens invertidas de um eu passado? Ficará meu reflexo bidimensional tremulando sobre a superfície do real?

O sinal, quando eu me aproximar da grade será o salto com asas, talvez um grasnado. Nada mais. Partirão em V, seguirão um horizonte que só existe para quem pode voar em linha reta, para quem tem um rumo. Que seja este rumo um outro pouso.

Não tenho asas, ainda assim, voarei, pois a queda será um voo interminável. Em algum momento, deixará de ser queda, pois já não haverá acima ou abaixo. Não há propósito, objetivo, não há lugar de chegada. Não haverá ninguém, não haverá acolhida. Apenas a precipitação infinita e a lembrança distante de biguás batendo as asas para se manterem no ar.

Rodada 95

Fotografia: Marilene Nacaratti
Escritor: Daniel Estill

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