De volta ao Sena

Essa era sem sombra de dúvida sua estação favorita.

Sofria ao pensar na possibilidade de não mais vir a sentir prazer ao pisar nas folhas caídas das árvores que despem-se.

Encontrava-se agora acamada em estado vulnerável para a dignidade humana.

Vencida por inimigo oculto que nunca viu, sequer encarou e tampouco tinha conhecimento de ter reagido reativamente.

Mas ele a pegou.

Nem foi em uma curva. Foi na reta mesmo.

Derrubou-a de tal jeito que sentia-se forçada a se despedir sem adeus.

Restava-lhe a liberdade da mente que a levava para onde quisesse ir. Pensou em aproveitar.

Viu-se caminhando às margens do Sena. Lembrou-se de quando sofrendo por amor e julgando-se sem rumo na vida, pensou em jogar-se em suas águas nada claras – justamente por isso.

Se adivinhasse que a vida poderia lhe ser tomada de forma tão desonesta teria se jogado.

Seguiu até o Le Depart Saint-Michel e degustou o café da manhã que julgava merecer.

Caminhou de volta para casa sentindo a brisa no rosto e agradeceu por estar viva.

No hospital não voltou a acordar. Estava viva … mas em outro lugar.

Rodada 95

Fotografia: Marcia Magda Marcos
Conto: Cristina Fürst

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