– Por favor, me deixe respirar um pouco.
E levantou endireitando a saia, fechando botões e andando rápido. Ele se espreguiçou o máximo que pôde. Esticou-se com os olhos fechados, imaginando até onde ela iria com aquela história de querer respirar… Quando os abriu, ela não estava muito distante. Via seu cabelo sendo acariciado pelo vento enquanto a saia não se movimentava com a brisa e permanecia sem mostrar nada que a sociedade não achasse conveniente mostrar. Amava seu cabelo, que tinha um cheiro parecido com o da grama na qual deitava agora. Estava mergulhado naquela languidez pós-volúpia. Preguiçoso até para ter ciúmes do vento que acariciava os cachos que, até a pouco, estavam sendo desfeitos por suas mãos. Ela permanecia lá, olhando não se sabe o que. Mas também não parecia estar ansiosa para voltar aos seus braços. E ele permanecia indolente até mesmo para se importar se ela voltaria agora ou nunca mais. Fechou os olhos novamente e tentou ver se conseguia ouvir seus movimentos. Ver se conseguia ouvir… Ela parecia não se mover. Ele acabou dormindo.
Quando acordou, ela e o sol já tinham partido. Em sua retina, ainda via a revoada de pássaros coloridos que estiveram naquela manhã por cima deles, como se abençoassem uma união que nunca poderia se concretizar além do espaço daquele pedaço de grama. Levantou e se espreguiçou em pé dessa vez. Sacudiu a grama grudada nas calças e ao fazê-lo encontrou um fio de cabelo marrom que se enroscou em seu dedo. Guardou-o no bolso da calça. Olhou o relógio, pela primeira vez naquele dia, e foi andando para casa. A mala já estava pronta. O navio partiria em breve. Na guerra, lembraria-se daquela manhã e, ao tomar o tiro, seria ele a pedir: por favor, me deixe respirar. Um pouco mais. Ainda quero ver os pássaros, revoando sobre nós, em um movimento de contínua esperança.
Rodada 95
Desenho: Maria Matina
Conto: Eliane França