A hora do Angelus

Lá fora é tão bonito, mas preciso ficar por aqui para garantir meu lugar. Segurança é necessário. Acima de tudo, sinto medo. Perdi a noção de quanto tempo estou aqui. Proteção. Preciso de proteção. Quando o crepúsculo acontece, todos voltam aos seus cubículos. E é nessa hora que eles começam a chegar. Andam para um lado, para o outro, olham ao redor tão assustados quanto eu. Evito fazer barulho, me enrolo toda para que meu cheiro não os atraia e tampo os olhos, sempre deixando uma nesga entre os dedos porque é melhor saber se estão se aproximando de mim. São nojentos e possuem uma falsa alegria que os torna ainda mais repulsivos. Mas eles creem na continuidade da raça. Eu tenho dúvidas. Fazem farra a noite inteira e só me deixam dormir pela manhã, quando vão embora. Sinto ímpetos de virar um deles. Mas não acredito tanto assim na vida. E nessa hora, quando o sol vai procurar outros mundos, fico observando lá fora… como é lindo. Parece que vai chegar uma noticia boa, mas nada acontece. É neste instante que eu me sinto tão, mas tão só, que até aceito a companhia dos ratos que surgem todos os dias para rezarem a Ave-Maria comigo.

Rodada 95

Fotografia: Roberto Abreu
Texto: Maria Emilia Algebaile

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