Retaguarda

Busco o rosto
só reconheço os olhos
a boca em mordaça
engole o fel

torno a olhar
e eles clamam
como quem pedem perdão

cravada de espinhos
mergulho

sou feita de azuis

as covas se abrem em enterros sombrios
e sem fala nem gestos
não há despedidas

na tela entre a cor e o bico de pena
a lágrima chega antes da palavra

sou feita de lutos

a rua deserta me chama
deslizo a planta dos pés
na grama rechonchuda

da esperança

sou feita de asas

depois da tormenta
resvalo na beira da praia

sou feita de sumos

as cenas se acumulam
na vertigem dessa manhã de maio

Sou feita de imagens

E nesse labirinto do que fui e do que serei
Me encontro na página em branco

E como sou de feita de partes

os fragmentos me tangem
ao rosto que tanto buscava

Sou feita de cicatrizes

Rodada Extra Quarentena

Fotografia: Patricia Cunegundes
Poema: Adriana Vieira Lomar

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