Tudo de novo no front!

– Poesia é um saco!

E saiu correndo escada abaixo. Nem argumentei. Também não encostei em nenhum corrimão. Continuei com as mãos nos bolsos. Só não cantei nem assobiei para não agitar ainda mais a criatura à frente. Que, a essa altura, já devia ter chegado ao primeiro andar. Fui descendo lentamente, sem saber se o que escutáramos no rádio seria verdade. Que já podíamos sair e que nada nos aconteceria. Nem por ação do sol, nem pelo contato com as superfícies sujas. Mesmo assim, coloquei meu chapéu. Mesmo assim, implorei para que ela passasse um filtro no rosto. Eu ia começar a ler mais uma página em voz alta quando o rádio, milagrosamente, captou a voz do locutor que comemorava: “Foi decretado o fim da oitententa.”. Achei meio ridículo aquele nome, que dobrava a quarentena. Achei meio ridículo aquele locutor começar a chorar. Só não achei nem um pouco ridículo o sorriso esgarçado da minha enteada, minha única família agora. Ela arrancou o livro das minhas mãos, na hora exata de ler mais um soneto, e saiu correndo. Me lembrei da mãe dela e de suas irmãs, de como eram brancas, de como eram expostas e de como os raios solares as devoraram como fizeram com muitos. “Passe o filtro, por favor!” – ainda consegui gritar e ela lambuzou as mãos com o creme, talvez se lembrando da face da mãe derretendo. Saiu pulando os degraus de dois em dois, mostrando a língua para mim e esfregando as mãos no rosto. Eu tinha de alcançá-la e, só deu tempo de pegar o chapéu e correr espiral abaixo, de degrau em degrau, para ver com meus próprios olhos que era verdade: que a juventude que achava poesia um saco sobreviveria.

Rodada 94

Fotografia: Luiz Felipe Sandins
Conto: Eliane França

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